Por Hélder Oliveira Coelho

Prólogo (habitual)

O regime está gasto. O que se escreve pode ser reeditado a qualquer momento.


Vivemos tempos difíceis. É bom que todos o saibamos. Portugal precisa de acreditar em si e prospectar sucesso. Mas o sucesso não se faz sem trabalho. Assim, há que caminhar para a excelência, sendo exigentes; a excelência não é obra de um dia, temos de trabalhar consistentemente, impondo-nos cada vez mais e melhores objectivos.

Contudo, só podemos exigir na mesma proporção e medida da nossa honestidade. Mais do que auto-estimas elevadas, a custo de egos balofos, é necessário trabalho honesto.

À honestidade, não se deveriam fazer honras; apenas reconhecê-la. Mas, em época em que esta não abunda, seja o mérito um corolário do trabalho, mais do que da sorte que as estrelas ditam.

Da política e dos políticos, espera-se honestidade. Honestidade nos pensamentos, no discurso e nos actos. Um país deve ser pensado como a vida, e os actos devem ser explicados. A tudo devemos entregar-nos com honestidade. A verdade é essencial à democracia.

O País, a Europa, o mundo estão em crise económica, de valores e de esperança. São os valores e a esperança que mais me preocupam. O Estado tem de responder a tempo de minorar e resolver a crise. Todos nós somos Estado.

Dirão que o discurso da crítica avulsa e sem nome é já antigo. Tenciono, pois, mudá-lo. Critico os políticos que vivem em falsidade. Se as reformas que este governo [a] não fez — mas diz ter feito — não fossem razão bastante para duvidarmos dele; ter uma figura de Estado, com curso tirado ao Domingo (imaginamos nós como), com projectos assinados de olhos vendados e agora com as nuvens da corrupção e favor a ensombrarem-lhe a alma, parece-me razão bastante para deixar de acreditar na honestidade de alguns políticos.

Aborrecem-me ideias de mediocridade, como ter um mundo pensado pela e para a estatística fortuita. Governar sem pensar é um erro, um país deve ser pensado no mínimo a trinta ou quarenta anos. Ainda não o entenderam e governam para o mediatismo e o imediatismo.

Aborrecem-me as autarquias com visão provinciana de futuro. Aborrecem-me autarcas corruptos, porque a democracia deve começar no cantinho onde vivemos.

Mas dói. Dói-me o trabalho desbaratado; dói-me na alma a pobreza de espírito dos que nos governam; dói-me a ausência de resposta e de coerência.

Dirão que sou um lírico, mas ainda sonho, com um país em que a liberdade e a igualdade sejam para todos. Sonho com um país fraterno e verdadeiramente democrático, sem cunhas ou favores, em que o mérito se reconheça pelo esforço. Não por clãs familiares ou partidários.

Deixo-vos com o poeta e visionário, Luís de Camões.

Correm turvas as águas deste rio,
Que as do céu e as do monte as enturbaram;
Os campos florescidos se secaram,
Intratável se fez o vale, e frio.

Passou o Verão, passou o ardente Estio,
Úas cousas por outras se trocaram;
Os fementidos Fados já deixaram
Do mundo o regimento, ou desvario.

Tem o tempo sua ordem já sabida;
O mundo, não; mas anda tão confuso,
Que parece que dele Deus se esquece.

Casos, opiniões, natura e uso
Fazem que nos pareça desta vida
Que não há nela mais que o que parece.

Notas:

a: Esta crónica foi originalmente difundida na Rádio Altitude [1] em 27 de Janeiro de 2009. (N. do E.)