Por Sara Teotónio Dinis

Disse em Dezembro que voltaria a escrever sobre a transformação pessoal [1] que se opera ao longo do curso de Medicina. Continuo hoje a reflexão que iniciei nessa altura, debruçando-me sobre a vontade.

A vontade tenra e apaixonada de salvar vidas, que motiva o estudo afincado anos a fio, é um alicerce cuja resistência começa desde cedo a ser testada. É a actuação de vários intervenientes da nossa história que nos vai obrigando a rever os nossos propósitos, a segurar os pilares do nosso querer e a força dessa mesma vontade.

Os primeiros instigadores da reflexão interior são os colegas de curso. Ainda que de forma passiva, os meus pares mais directos fizeram-me aterrar no mundo real. Aterragem mais ou menos cruel, mas necessária à construção duma ferramenta vital para a sobrevivência ao curso de Medicina — o ego. Seja por terem entrado no curso por um motivo diferente do meu, ou por virem de um meio mais abastado, ou por terem uma educação forjada sob princípios diferentes dos da minha e com condicionamentos muito díspares, os meus colegas e as suas acções desde logo me fizeram ver que o mundo médico não queria todo a mesma coisa, e não era, todo ele, brilhante e feliz.

Os segundos instigadores são, caso se aplique, os colegas que praticam «a praxe» [2, 3]. Apesar de ter sido praxada — algo que na altura me fez sentir muito bem porque me era transmitida a alegria «especial» de estar na «melhor universidade do país», no «melhor curso do mundo», e porque estava rodeada das pessoas que iam, comigo, mudar o mundo (para melhor, leia-se) —, um ano mais tarde não consegui fazer o mesmo aos meus colegas mais novos. Limitei-me a fotografá-los durante os rituais daquelas primeiras semanas. Conjugar a atitude ditadora dos meus colegas que se tornaram verdadeiros «doutores de praxe» com o seu futuro de responsabilidade como médicos foi um exercício mental algo complicado.

Não me parece que, na altura, houvesse plena consciência do que fazíamos, à luz do papel que hoje desempenhamos. Hoje exigimos respeito [4], mas noutros tempos não soubemos fazer valer esse direito, tendo permitido que um dia alguém nos tivesse intimado a simular cópulas animais ou a colocarmos-nos de quatro, porque sim. A «praxe» fez-me entender que não éramos, de todo, especiais, pois que fazíamos tudo como os alunos dos outros cursos. Não éramos mais que qualquer caloiro ou «doutor», perdendo, respectivamente, a noção e completa consciência das acções, e a razão com o poder efémero que naqueles dias  nos passa ilusoriamente pelos dedos.

Os professores — perdão, os Excelentíssimos Senhores Professores — seguem-se no percurso natural de personagens fundamentais ao desenvolvimento pessoal durante o curso. Estes senhores e senhoras têm a função importantíssima de nos ensinar as bases da Medicina — os conhecimentos relativos a cada uma das suas áreas, as fragilidades e desafios da relação médico-doente — e as bases de humanidade com que esta se deve exercer.

Esta função de professor na faculdade de Medicina é, assim, muito exigente, pelo que só a ela se devia dedicar quem tivesse a força para carregar esta responsabilidade, o tempo para a preparar e exercer correctamente, e a disponibilidade para ouvir os alunos e responder às suas dúvidas e ânsias.

Muitos dos professores da minha faculdade pecam por não corresponder a parte do que deles se espera e por não conseguirem descer do pedestal onde eles próprios se colocaram — e que não é fundamentado. A sua cadeira desestruturada não é «a mais importante de todo o curso», a sua prova oral sem critérios não é «o melhor método de avaliação da faculdade», a faculdade cujo corpo docente integra e cuja inovação trava repetidamente não é «a melhor faculdade de Medicina do país», e um professor que passa por um aluno no corredor e não lhe responde à saudação não é «o professor mais dedicado a esta casa».

Felizmente estes maus exemplos constituem menos de metade do corpo docente, ainda que muitas vezes sejam os professores mais conhecidos pelo público em geral. Eles são exemplos (ainda) vivos dos comportamentos perpetuados ao longo de décadas na antiga classe médica de exclusividade e prestígio, aquela a que os doentes beijavam os pés, e que fez uso e abuso da sua influência. Gabando-se desmesuradamente, semeou o «ódio aos médicos» de que hoje tanto se queixam os meus colegas. Os médicos não são deuses, nem tão pouco os ajudam a fazer seja o que for. Ver comportar-se desta maneira quem me devia dar o exemplo foi uma grande desilusão.

Os amigos que criamos dentro do curso são os instigadores mais próximos, e, por vezes, são quem mais nos abana os alicerces. Seja por não verem notícias, ou não discutirem políticas, ou por não conseguirem ouvir ou tolerar uma opinião contrária à sua, seja por não integrarem o associativismo, ou não participarem noutras actividades extra-curriculares, ou por ignorarem as actividades que o núcleo de estudantes dinamiza.

Parte dos meus amigos entregou-se a este marasmo, e penso que, apesar de ter evitado «chatices», fechou a porta a demasiadas oportunidades enriquecedoras do ponto de vista profissional, mas, acima de tudo, do ponto de vista humano. Foi triste, por vezes, constatar que tinha vontade para cultivar o «fazer mais» mas só conseguia ter companhia para «sair mais» (à noite, para comer, beber e festejar — não sei muito bem o quê).

No meu entender, julgo que é impossível que a vontade tenra e apaixonada de salvar vidas continue igual após seis anos de curso — intacta, ingénua, serena e feliz. São seis anos repletos de etapas curriculares importantes e vivências humanas igualmente determinantes.

Esta foi a segunda análise retrospectiva da metamorfose que em mim se operou durante aquele período importantíssimo na minha vida. Sublinho o termo — retrospectiva — dado que, como é sabido, a memória se deteriora ao longo dos anos, e é selectiva.