Por Gustavo Martins-Coelho

Coitados dos que casam. Casar é entregar-se voluntariamente à porta da prisão, como um vulgar criminoso, com um ramo de flores. Qualquer ladrãozeco sabe que não se leva flores para a cadeia e que só se entrega voluntariamente quem percebeu que não há escape possível.

Ainda por cima, é caro: para os noivos, um par de inconscientes a quem ninguém tem coragem de dizer umas verdades sobre a vida; para os pais dos noivos, que tinham a obrigação de não deixar os seus filhos seguir por maus caminhos — isto se os pais não tivessem há muito desistido de educar os filhos; e para os convidados, que se vêem envolvidos numa espiral despesista, entre presentes e roupa para a ocasião, da qual têm tanta culpa como têm da vinda da troika todos os operários que viveram acima das possibilidades que lhes conferiam os seus salários mínimos.

Eu gosto tanto de casamentos, que o último em que estive decorreu quando eu tinha quatro ou cinco anos — já nem me lembro bem. As únicas memórias que guardo desse casamento é ter sido abandonado na igreja pelos meus pais, que foram para o altar fazer discursos de circunstância, armados em padrinhos, e me deixaram ao cuidado duma senhora que eu não conhecia nem nunca mais voltei a ver na vida (ou, se vi, não reconheci); e ter visto uma outra senhora, coberta de branco da cabeça aos pés, a comer arroz com uma sofreguidão tal que fiquei com pena dela — certamente, já não comeria há vários dias, a julgar pelo tamanho apetite!

A experiência foi tão boa que, felizmente, tenho conseguido evitar todos os casamentos desde então — incluindo o meu próprio.