Por Satoshi Kanazawa [a]

Em 2008, a poligamia mereceu vasta atenção do público e muitas conversas de café entre muitos Americanos, devido ao sucesso da série da HBO «Big love» [2] e ao julgamento do líder da seita mórmon Warren Jeffs [3]. A maioria dos Americanos considera o casamento polígamo exótico, incomum, bizarro e mesmo moralmente errado; daí a atracção de «Big love» ou a excitação em torno do julgamento de Jeffs. Mas a poligamia não é assim tão exótica; muitos Americanos — a maioria — já estão em casamentos polígamos.

Primeiro, esclareçamos os conceitos. A poligamia é o termo para um casamento dum homem com mais duma mulher. A poliandria é o casamento duma mulher com mais dum homem. A poligamia é frequentemente usado como sinónimo de poliandria, porque há muito poucas sociedades poliândricas no mundo.

Naturalmente, a poligamia simultânea, do tipo representado em «Big love» e praticado por Jeffs, é ilegal em todos os cinquenta estados dos EUA. No entanto, muitos Americanos (e outros) praticam a poligamia seriada, através duma série de casamentos e divórcios consecutivos. Para todos os efeitos práticos, as consequências da poligamia seriada são exactamente os mesmos da poligamia simultânea.

Quando um homem como Bill Henrickson — o polígamo ficcional de «Big love» — tem três mulheres ao mesmo tempo, a consequência matemática, dada uma razão sexual de aproximadamente 50:50, é que ele está a privar outros dois homens das suas oportunidades reprodutivas. Dois outros homens não podem ter uma mulher e filhos, porque Henrickson tem três. Quando Donald Trump [4] teve três mulheres sequencialmente, também ele privou outros dois homens das suas oportunidades reprodutivas, porque, quando ele se divorciou das suas mulheres anteriores, estas já tinham ultrapassado a sua idade reprodutiva. O mais forte preditor de novo casamento após o divórcio é o sexo: os homens geralmente casam de novo, enquanto as mulheres, normalmente, não o fazem. Nem Ivana Trump nem Marla Maples casaram novamente após o divórcio de Trump (embora Ivana tenha sido brevemente casada, sem filhos, antes de Trump).

As relações extraconjugais são outro meio para o acasalamento polígamo, e os homens casados são mais propensos a envolver-se em relações extraconjugais do que as mulheres casadas. Quando um homem casado tem duas amantes ou namoradas solteiras, a consequência é essencialmente a mesma: ele está a privar outros dois homens das suas oportunidades de acasalamento. Assim, qualquer homem que se tenha divorciado e casado de novo, qualquer mulher que se tenha casado com um homem divorciado, qualquer homem casado que tenha tido relações extraconjugais de longa duração, ou qualquer mulher que tenha tido relações com homens casados, estão todos a praticar algum nível de poligamia, com a mesmas consequências que a poligamia simultânea de Henrickson e Jeffs.

Seja simultânea, seja seriada, a poligamia é comum porque os seres humanos são naturalmente polígamos. Os cientistas concordam que os dados antropológicos e arqueológicos mostram inequivocamente que os seres humanos têm sido medianamente polígamos ao longo da história evolutiva [b]. Os seres humanos não são tão polígamos como os gorilas, cujos machos adultos mantêm um harém com várias fêmeas, mas não são estritamente monogâmicos como os gibões, cujo macho e fêmea acasalam para a vida.

No próximo artigo, vou abordar a questão de quem beneficia duma sociedade polígama: os homens ou as mulheres? A resposta pode surpreender o leitor.


Notas:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe. (n. do T.)

b: Chamo a atenção do leitor para o perigo da falácia naturalista — a derivação de implicações morais a partir de factos científicos. «Natural» não significa nem «bom» nem «desejável». Muito menos quer dizer «inevitável». (n. do A.)