Por Satoshi Kanazawa [a]

Os cientistas sabem há muito tempo que nascem mais bebés do sexo masculino do que o habitual durante e após as grandes guerras. O fenómeno foi observado pela primeira vez em 1954, em relação às crianças brancas nascidas durante a Segunda Guerra Mundial, nos Estados Unidos. Desde então, foi replicado na maioria das nações beligerantes nas duas Guerras Mundiais. O fenómeno foi apelidado de «efeito do regresso do soldado.» Não há dúvida de que o fenómeno é real, mas ninguém foi capaz de explicá-lo. Por que têm os soldados que regressam das guerras maior probabilidade de ter filhos do sexo masculino do que os restantes homens?

Actualmente, há sinais de que, pelo menos entre os soldados britânicos que lutaram na Primeira Guerra Mundial, os que sobreviveram às batalhas e voltaram a casa, para as suas mulheres, eram mais altos do que os que morreram sem voltarem a ter uma oportunidade de ter uma criança. A comparação das características físicas dos soldados britânicos que sobreviveram e morreram na Primeira Guerra Mundial mostra que os soldados sobreviventes eram em média cerca de 2,3cm mais altos do que os soldados caídos. A altura média dos soldados sobreviventes era de 1,687m, enquanto que a dos soldados mortos era de 1,664m. Mesmo na pequena amostra examinada, esta diferença de 2,3cm é altamente estatisticamente significativa.

Como explicamos no Capítulo 5 do livro: «Why Beautiful People Have More Daughters» [Por que as pessoas bonitas têm mais filhas] [2]Some Things Are More Important Than Money: The Evolutionary Psychology of the Family» [Algumas coisas são mais importantes do que o dinheiro: a psicologia evolutiva da família]), os pais mais altos têm maior probabilidade de ter filhos do sexo masculino do que os pais mais baixos. Assim, o excesso de rapazes nascidos durante e imediatamente após as Guerras Mundiais poderá ser consequência do facto de que os soldados mais altos, que são mais propensos a ter filhos homens, têm também maior probabilidade de sobreviver à guerra e de voltar a casa, enquanto os soldados mais baixos, que são mais propensos a ter filhas, têm menos probabilidade de sobreviver à guerra e de voltar a casa para ter filhas.

Agora, o leitor poderá estar a questionar-se:

— Que diferença pode uma tão diminuta diferença de altura — um pouco mais de 2cm — possivelmente fazer?

Estimativas detalhadas mostram, no entanto, que essa diferença de altura é mais de duas vezes o necessário para justificar a totalidade do excesso de rapazes nascidos no Reino Unido durante e imediatamente após a Primeira Guerra Mundial. Na verdade, um aumento de 2,3cm de altura só aumenta em 5% a probabilidade de ter um filho do sexo masculino. No entanto, dada a quantidade de homens mobilizados durante a I Guerra Mundial (cerca de um terço das pessoas entre as idades de quinze e quarenta anos no Reino Unido), o aumento de 5% da probabilidade de ter um filho homem para os soldados sobreviventes mais altos traduz-se em milhões de meninos em excesso. É mais do que suficiente para justificar todo o «efeito do regresso do soldado» no Reino Unido após a Primeira Guerra Mundial.

Esta explicação de por que nascem mais rapazes do que o habitual durante e após as guerras levanta uma outra questão: por que é que os soldados mais altos têm maior probabilidade de sobreviver na guerra? Especularei sobre esta questão no meu próximo artigo.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).