Por Sara Teotónio Dinis

Na semana passada, o espaço do «Olho Clínico» [1] foi ocupado por uma breve (sim, breve) compilação dos principais efeitos do consumo de tabaco — do hábito tabágico, para ser mais correcta [2].

Não é objectivo desta coluna limitar-se à publicação simples duma lista. Contudo, na semana passada optei por dividir o que queria dizer em dois textos distintos. No dia 29 de Abril, publiquei os factos; hoje publico a minha opinião relativa ao hábito e construída face a esses factos, às minhas vivências e às aprendizagens. Portanto, o texto de hoje ganhará (idealmente) força com a publicação do anterior, mas o primeiro prevalece relativamente ao segundo pelo peso do seu conteúdo.

Antes de emitir a minha opinião, quero apenas sublinhar mais um par de aspectos. O primeiro — algumas pessoas muito importantes para mim fumam há muitos anos, já tentaram deixar o hábito várias vezes, sem sucesso, continuam a fumar, reconhecem que é um hábito nada saudável e sabem que beneficiariam imenso se conseguissem abandoná-lo. O segundo — já experimentei o tabaco — dei duas passas, tossi muito a seguir, detestei o sabor e a sensação de queimadura na garganta, e naturalmente não percebi qual era o prazer em fazer tal gesto repetidamente. O terceiro — este texto surge direccionado para os fumadores que defendem o seu vício irracionalmente, negando os malefícios do tabaco para si e para os outros que os rodeiam; para os que não aceitam as alterações à legislação relativa ao hábito de fumar em locais públicos fechados e se protegem da crítica e da opinião pública com o argumento da «liberdade para decidir o que fazer, quando o fazer, como o fazer e onde o fazer, já que a vida é minha»; e principalmente para todos os fumadores que conjuguem estas especificidades. O quarto — vou ser muito dura, «pura» e crua; afinal de contas é a minha opinião, e hoje não fala a voz da «dr.ª Sara» — hoje fala a voz do coração da Sara e este, meus amigos, não é nada racional.

1. Fumadores que defendem o seu vício irracionalmente, negando os malefícios do tabaco para si e para os outros que os rodeiam — tenham a humildade e a amabilidade de reconhecer que o tabaco faz mal perante quem sabe (e está farto de saber) que faz muito mal. Querem continuar viciados no fumo? Continuem. Mas tenham a coragem de defender humildemente a vossa escolha nada saudável, reconhecendo perante os outros que não é um hábito saudável. Querem negá-lo? Não o neguem estupidamente e com argumentos infundados aquilo que as pessoas contrapõem e que está sobejamente provado, principalmente se quem convosco finca o pé são pessoas que vos querem bem. Quem vos quer bem gosta de vocês à mesma — pode não frequentar muito a vossa casa por causa do cheiro a tabaco entranhado em todo o lado… pode não vos cumprimentar com beijinhos por causa do mau hálito… mas continua a querer-vos bem, vos garanto. Limitem-se a negá-lo para vós, se isso vos acalma a consciência de cada vez que acendem um cigarro.

Relativamente aos que defendem que o tabaco que fumam não faz mal às pessoas que vos rodeiam, façam o favor de se ir envenenar longe dos que não fumam — faz-nos mal, muito mal. Morremos que nem tordos como vocês um dia hão-de morrer — eu, os vossos amigos, os vossos filhos (aquelas micropessoas que vivem na mesma casa que vocês e que gostam de vos imitar a fumar e que levam com o fumo todos os dias…) — e, tal como vocês, também temos o direito a escolher como queremos morrer — eu não quero morrer por causa do tabaco dos outros. Ponto.

Mulheres grávidas — sois responsáveis por uma nova vida humana, que um dia há-de ter poder e capacidade de decisão. Não a viciem em nicotina antes de ela sequer poder abrir os olhos para conhecer este mundo lindo onde muita gente ainda quer viver o máximo de tempo possível… Se se preocupam tanto se Deus a vai fazer «perfeitinha», não percam tempo a estragar o trabalho que vocês querem que Ele faça — não fumem um cigarro que seja! No meu mundo imaginário, mulher grávida que fumasse era acusada de negligência e o caso entregue à CPCJ. Mulher grávida não pode fumar. Ponto.

— Ai, mas eu acho que a ansiedade de não poder fumar vai fazer mais mal ao bébé do que fumar… Eu vou ficar muito nervosa e isso faz mal à criança!

E que tal teres deixado de fumar antes de engravidar, alminha?!

Pausa. Respira, Sara… Respira. Refreia-te lá um bocadinho, vá, senão, para a próxima semana, o «Olho Clínico» [1] não tem leitores… Continuando.

2. Fumadores que não aceitam as alterações à legislação relativa ao hábito de fumar em locais públicos fechados e se protegem da crítica e da opinião pública com o argumento da «liberdade para decidir o que fazer, quando o fazer, como o fazer e onde o fazer, já que a vida é minha» — um destes fumadores chamou-me tirana há uns meses. Vou citar:

— Seja, os não fumadores têm a hipótese de, tal como os fumadores, escolher o estabelecimento, havendo os dois tipos. Por que raio se haverá de limitar a liberdade de grande parte da população? É uma pequena tirania!

Tirania? Tirania?!… Acho que, no que toca à «tirania», tive razão em responder:

— Há dois grupos de pessoas, há uma medida que agrada a um dos grupos, e desagrada outro. Caso a medida passe, o primeiro grupo, o das pessoas que não fumam, fica sujeito a ter de entrar em determinados estabelecimentos onde há fumo e, se não quiser fumar passivamente, tem como única alternativa ficar fora do estabelecimento e ir embora; caso a medida passe, o segundo grupo, o das pessoas que fumam, entra à mesma no estabelecimento, consome, está com os amigos e, se quiser fumar, faz uma pausa de três minutos, vai lá fora, fuma, e volta a entrar. Postas assim as coisas, quer continuar a chamar-me tirana? Força.

Nada mais tenho a acrescentar.

3. Todos os fumadores que conjuguem as especificidades anteriores: por favor, fumem longe e não queiram comprar constantemente uma guerra que há muito já perderam — sim, já perderam, quanto mais não seja porque fumam e eu não.

Todos os outros fumadores, que fumam sem chatear ninguém e não se orgulham estupidamente do seu vício, obrigada por não me quererem envenenar o corpo nem os nervos.

Para terminar o desabafo, dirijo apenas algumas palavras aos fumadores calmos, serenos e respeitadores que não contemplam a hipótese de deixar o seu vício (os outros que me enervam e que também não contemplam essa possibilidade podem ler também se ainda por aqui estiverem): há muitos motivos para deixar de fumar, e muitos motivos para não deixar de fumar. Cabe a cada um pesar uns e outros nos dois pratos da balança e decidir que rumo dar à sua saúde. O «defeito» profissional leva-me a querer sempre a querer motivar a mudança; desta vez não insisto muito, porque de novo me pergunto:

— Mas quem és tu, Sara, para querer fazer os outros mudar?… [3]

Enfim. Cá vai à mesma. Só há dois pratos: ou se fuma ou não se fuma, essa de «só fumo 2 cigarros por dia, mal não há-de fazer» não conta. Referindo-me aos argumentos mais esgrimidos nesta fase, estão mesmo preparados para «não durar até aos cem»? Querem viver até que idade — setenta, oitenta? Dado que os fumadores perdem em média dez anos de vida, os setenta, oitenta, reduzem para sessenta, setenta… Ora, a idade da reforma já vai nos 66… Devem ter tido os filhos aos 25, trinta, portanto eles estarão com 35, e os netos com 5… Finalmente, já não há a rotina do emprego a chatear a massa encefálica e a moer o sistema, vão «ver crescer os netos e gozar a reforma com tranquilidade»… Vão mesmo? Se calhar, até vão à mesma… ninguém adivinha o futuro. Mas uma coisa é caminhar junto à berma da estrada e ir andando serenamente. Outra bem diferente é caminhar no meio da estrada e contar não ser atropelado por um veículo em movimento.

Repito: há muitos motivos para deixar de fumar, e muitos motivos para não deixar de fumar. Cabe a cada um pesar uns e outros nos dois pratos da balança e decidir que rumo dar à sua saúde (e à sua vida).