Por Gustavo Martins-Coelho

Quando eu era criança, a minha professora primária ensinou-nos uma canção, cuja letra começava assim:

Quando o Verão chega, é maior o dia
Há menos tristeza, há mais alegria!

Já não me lembro do resto da letra; e desconheço o título e o autor. Se alguém souber ajudar-me a identificar a canção, agradeço.

De qualquer forma, abro com estes dois versos, porque o tema que me traz hoje à antena é, precisamente, o Verão, que chegou há dias. Embora o tempo não esteja o mais veranil que se possa conceber, esta é, ainda assim, provavelmente a altura indicada para falarmos dos riscos do calor.

Em primeiro lugar, deixem-me chamar a atenção para a poesia que se encontra escondida nos lugares mais inesperados: uma ciência como a meteorologia vai buscar analogias, imagine-se, à água do mar. Tal como este tem ondas e vagas, também a temperatura tem ondas e vagas — ondas de calor e vagas de frio. O princípio é o mesmo em ambos os casos: o que sobe acima do nível médio é uma onda; o que desce abaixo desse nível médio é uma vaga.

Portanto, uma onda de calor é, em termos gerais, um período de calor intenso, durante vários dias consecutivos. Claro que o conceito de «calor intenso» depende da temperatura considerada normal em cada região: a mesma temperatura pode ser normal num clima equatorial, como o de Manaus, no Brasil, onde a nossa selecção defrontou os Estados Unidos anteontem, e ser considerada uma onda de calor num clima temperado, como o nosso. Assim sendo, em Portugal, considera-se que estamos perante uma onda de calor, quando a temperatura sobe, pelo menos, 5°C acima do valor médio de referência durante, pelo menos, seis dias consecutivos.

O calor intenso constitui uma agressão para o corpo humano. O nosso corpo esforça-se a todo o momento por manter uma temperatura interna constante, normalmente à volta dos 37°C. Durante os períodos de calor, o corpo produz suor, cuja evaporação permite a dissipação do calor corporal. O suor é composto por água e sais minerais, entre outros elementos, e serve principalmente para regular a temperatura (embora desempenhe também um papel na excreção dos desperdícios tóxicos do metabolismo). Portanto, se se suar muito, é possível perder uma grande quantidade de água e de sais minerais. Desta perda intensa podem resultar, em situações extremas, doenças relacionadas com o calor, como as cãibras por calor, esgotamento devido ao calor e golpes de calor, situações que, pela sua gravidade, podem necessitar de cuidados médicos de emergência. Debrucemo-nos um pouco mais detalhadamente sobre estas três patologias relacionadas com o calor excessivo.

As cãibras por calor podem resultar tanto da exposição a calor intenso como do exercício físico intenso. Em ambos os casos, a transpiração aumenta e, se se fizer uma hidratação inadequada, só com água, os sais minerais perdidos na transpiração não são repostos; e este desequilíbrio pode causar cãibras. Embora seja uma situação pouco grave, pode necessitar de tratamento médico. As cãibras são especialmente perigosas em pessoas com problemas cardíacos ou com uma alimentação pobre em sal. As cãibras por calor manifestam-se por espasmos musculares dolorosos do abdómen e dos membros. Se surgirem durante o exercício físico, este deve ser interrompido. Em qualquer caso, deve procurar-se um local fresco e calmo para descansar e esticar os músculos e massajá-los suavemente. Deve também beber-se sumos naturais, sem adição de açúcar, ou bebidas próprias para desportistas. Se as cãibras persistirem, deve então procurar-se ajuda médica.

O esgotamento devido ao calor resulta também da perda excessiva de água e de sal através da transpiração; e pode ser especialmente grave nas pessoas idosas e nas pessoas com hipertensão arterial. Os sintomas incluem sede intensa, grande sudação, palidez, cãibras musculares, cansaço e fraqueza, dor de cabeça, náuseas e vómitos e desmaio. A temperatura do corpo pode estar normal, ou ligeiramente abaixo ou acima. O pulso fica fraco e rápido e a respiração torna-se rápida e superficial. Neste caso, deve ligar-se para o 112. Até à chegada da ajuda médica, o doente deve ser transportado para um local fresco, ou para uma sala com ar condicionado; deve ser deitado, com as pernas levantadas; refrescado com toalhas húmidas ou pulverizando o corpo com água fria; e, se estiver consciente, devem ser-lhe dados a beber sumos de fruta sem açúcar ou bebidas para desportistas.

O golpe de calor é uma situação particularmente grave, que pode provocar danos irreversíveis na saúde, ou até a morte, e ocorre quando o organismo deixa de conseguir regular a sua temperatura autonomamente. Quando isto acontece, a temperatura corporal pode, num curto período de tempo, subir o suficiente para provocar lesões cerebrais, ou até mesmo a morte, se o indivíduo não for socorrido de forma rápida. Os sintomas do golpe de calor incluem febre alta, pele vermelha, quente, seca e sem produção de suor, pulso rápido e forte, dor de cabeça, náuseas, tonturas, confusão e perda da consciência. Perante uma situação destas, deve ligar-se de imediato para o 112 e, até à chegada da ajuda, realizar os mesmos procedimentos que descrevi para o esgotamento por calor. Deve-se ainda procurar arejar o doente, agitando o ar vigorosamente ou com um ventilador.

Para evitar todas estas complicações da exposição ao calor intenso, há uma série de precauções que devem ser tomadas, as quais descreverei para a semana.