Por Gustavo Martins-Coelho

Na semana passada, terminei a minha apologia do transporte colectivo [1] com um desafio ao leitor: abandonar o preconceito e experimentar o transporte colectivo. O preconceito é real e vê-se, por exemplo, num maravilhoso trecho do blogue «A nossa terrinha» [2], cuja leitura recomendo, ou nos míopes corolários extraídos pela autora das premissas apresentadas num outro artigo recentemente publicado no «Porto 24» [3]. Mas o preconceito não é totalmente infundado: de facto, nem tudo vai bem no reino da Dinamarca e a visão negativa do transporte colectivo resulta da generalização (em boa verdade, injusta, por vezes) de situações particulares, mas que são reais e que também já abordei neste blogue [4, 5].

Nos três anos e três meses, por junto, que vivi em três países do Norte da Europa, não tive carro e não senti a sua falta. Andei muito a pé, também de bicicleta, raras vezes de boleia e sobretudo de transporte colectivo. Actualmente, novamente a viver em Portugal há dois anos e meio, uso o carro todos os dias [1]. Então, por que é que eu ando de carro em Portugal, mas não no estrangeiro?

A primeira razão é a inexistência do serviço. Poderia perorar muito sobre o assunto, mas acho que o comentário [6] que a Sara [7] me deixou ao artigo da semana passada [1] resume toda a ideia em poucas palavras:

Estivesse o Ramal [da Lousã] a funcionar e a partir de Julho eu começaria a [usá-lo nas minhas deslocações diárias para o trabalho].

Generalizando: houvesse transporte colectivo para todo o lado e muita gente, estou certo, o usaria.

A segunda razão é a informação. Um serviço, quando existe, só é útil se o utilizador tiver conhecimento da sua existência e conseguir compreender o seu funcionamento. No Norte da Europa, é possível usar a Internet para planear deslocações em transportes públicos [8, 9, 10]. No caso da Dinamarca e dos Países Baixos, uma só página [9, 10] permite planear uma viagem para o país inteiro, em qualquer operador, público ou privado, bastando inserir o nome da rua e o número da porta (ou informação equivalente) donde partimos e aonde pretendemos chegar. Em Portugal, temos a página da CP [11] para os comboios, a da Rede Expressos [12] para os autocarros, mais uma data de páginas para outros operadores «menores», e o «Transpor.pt» [13], que permite calcular percursos entre portos, aeroportos, estações de caminho-de-ferro de longo curso ou terminais rodoviários. Porém, nem todos os operadores estão incluídos; e descobrir como chegar do terminal seleccionado ao verdadeiro destino fica a cargo do passageiro [a]. Para esse efeito (ou para outras deslocações locais), temos no Porto, por exemplo, uma porcaria chamada «Itinerarium.net» [14], que passa mais tempo inoperacional do que a funcionar e nem sequer cobre todas as empresas que operam na cidade (nem sequer, ao menos, toda a rede Andante [15]), além de demorar tempos infinitos a ser actualizado (meses depois do prolongamento até Santo Ovídio, ainda ele julgava que o metro acabava em D. João II, por exemplo), e estamos todos muito contentes, porque a página do SMTUC [16], de Coimbra, consegue ser ainda mais sofrível. Apesar de contentes, resolvemos lançar na mesma o «Move-me» [17], que faz o mesmo que o Itinerarium.net [14], mas no telemóvel (desde que ligado à Internet, num país onde, em cada dez pessoas, só nove sabem ler, só seis têm acesso à Internet e só uma a usa no telemóvel). Ou seja, passámos a ter dois serviços redundantes, ambos financiados pelos nossos impostos e pela União Europeia! Mas mesmo o Move-me [17] tem as suas limitações: frequentemente me acontece o Move-me [17] jurar não haver ligações para o meu destino, momentos antes de eu ver passar um autocarro directo para o ponto aonde pretendo ir.

Para um utilizador compreender a funcionamento dum serviço, convém que este seja, acima de tudo, visível. No mundo moderno, em que tanto se fala da importância da marca, da sua distinção do demais ambiente circundante, da sua visibilidade, da sua unidade (em suma, do branding [18], que, se não fosse em Inglês, não soaria bem [19]), é importante que o passageiro consiga compreender facilmente, por exemplo, como entra e como sai da rede de transportes. Por isso, cada um dos países em que vivi tem sinais indicativos das paragens de autocarro e das estações de comboio com a mesma cor e feitio em todo o seu território [20, 21, 22]: onde quer que um passageiro se encontre, consegue sempre identificar um ponto de entrada na rede de transporte colectivo com igual facilidade. Em Portugal, apesar de haver um sinal previsto no Código da Estrada para identificar as paragens de autocarro [23], cada operador tem o seu próprio sinal, muito mais chique [24]. Às vezes, nem isso: é simplesmente deixada ao passageiro a obrigação de adivinhar que naquele ponto exacto pára um autocarro. Para onde? Não sabemos. Mesmo nos locais identificados pelo sinal H20a [23], este não prevê nenhum tipo de informação complementar a respeito de que linhas é suposto servirem essa paragem. Com a informação incompleta na Internet e a parca sinalética existente, sobretudo fora dos centros urbanos, fica difícil a um potencial passageiro optar pelo transporte colectivo, dado que não consegue ter de antemão a certeza de chegar efectivamente ao destino. Na dúvida, o carro é mais seguro.

A raridade do transporte colectivo em muitas regiões do País e a falta de informação são, então, as primeiras razões para optar pelo carro em detrimento daquele. Para a semana, há mais.


Nota:

a: Por vezes, mesmo pontos intermédios do percurso calculado ficam por explicar. Experimente o leitor pesquisar, por exemplo, na página da CP [11], uma viagem entre uma estação da linha do Norte e uma da linha de Cascais e verá, a certo ponto, aparecer a sigla TC, que significa «transporte complementar». Mas complemente-o você mesmo, porque a informação da CP é: «táxi, autocarro, …» e mais nada. O Transpor.pt tem o mesmo problema, quando é necessário fazer um transbordo que implique ir dum terminal rodoviário a outro, ou a uma estação ferroviária.