Por Gustavo Martins-Coelho

Na semana passada, apresentei as duas primeiras razões para usar o carro em Portugal, mas não sentir a falta dele no estrangeiro [1]. A primeira é a inexistência de rotas de transporte colectivo para muitos destinos aonde pretendo chegar. A segunda é, quando tais ligações existem, estarem tão bem escondidas que não se percebe que existem.

Hoje continuo com a terceira razão: a simplicidade (ou a falta dela). Um serviço é tão mais atractivo quanto mais fácil for de usar. Nos Países Baixos, um único bilhete [2] serve em todos os transportes colectivos urbanos e interurbanos do país. Tudo o que tenho de fazer é carregar o bilhete, como quem carrega um telemóvel pré-pago, validá-lo à entrada e novamente à saída do autocarro, do metro, do barco, do eléctrico ou do comboio e ele calcula a distância percorrida, o preço a pagar por essa distância e dedu-lo do saldo do bilhete. Quando o saldo termina, carrego-o novamente. Na Dinamarca e na Alemanha, é mais complicado. Mas nada bate Portugal. Para ir de casa ao trabalho (exclusivamente de transporte público), preciso dum passe dourado Andante Z3, mais um passe verde dos suburbanos da CP Porto, e ainda dum bilhete (ou passe) para o autocarro que já vi passar perto da estação e do centro de saúde — mas que, pelos motivos elencados no artigo anterior [1] desta colecção, não sei onde se compra o bilhete, muito menos onde se apanha o dito autocarro. Três bilhetes só para chegar de casa ao trabalho. Mas, para ir à faculdade dar as minhas aulinhas uma vez por semana, o passe Andante Z3 do trabalho não chega e não justifica comprar um passe Z4 só para isso. Então, preciso dum bilhete Andante azul Z2, para cobrir a zona que me faltava no passe e que também me serve para outras viagens pelo Porto. Mas também vou frequentemente à Maia. Essa viagem, então, é preciosa: para ir, preciso dum bilhete azul andante Z3 (não confundir com o passe dourado Andante, que, apesar de ser também Z3, não serve para este efeito), mas, para vir, preciso dum bilhete azul andante Z4. A mesma viagem, pelo mesmo percurso, nos mesmos veículos, fazendo os mesmos quilómetros, gastando a mesma quantidade de energia e recorrendo ao mesmo número de trabalhadores do metro e da STCP [3], custa €1,50 à ida e €1,85 na volta!!! Explique o leitor este contrassenso, se conseguir… Mas não fica por aqui: este ano, já tive de ir três vezes a Coimbra e cinco a Lisboa (a maioria das quais por motivos profissionais). Para qualquer destas viagens, preciso dum bilhete da CP Longo Curso, que se assemelha vagamente a um talão do supermercado, se for comprado numa bilheteira, e ocupa uma página A4 inteira de letrinhas pequeninas, se for comprado através da Internet. Chegado a Coimbra B, preciso dum bilhete amarelo torrado do SMTUC [4] para apanhar o autocarro para o meu destino. Mais cinquenta cêntimos pelo bilhete, que é reutilizável. Em Lisboa, o bilhete é verde, mas o preço é o mesmo. Cansado, leitor, de tamanha complicação? Também eu! Olhe, vá de carro, para relaxar.

Passemos à questão da disponibilidade do serviço. Nos Países Baixos, se quiser atravessar o país de Groninga a Maastricht, as capitais de província, respectivamente, mais a Norte e mais a Sul, o leitor dispõe, num dia normal, de 55 ligações de comboio. Em Portugal, igual exercício hipotético leva-nos de Bragança a Faro… e já cheira a desastre, que se confirma quando se pesquisa o Transpor.pt [5]: o passageiro tem ao dispor seis ligações diárias entre estas duas capitais de distrito. Nem a diferença de dimensão explica esta disparidade: Groninga e Maastricht têm, cada uma, mais de três vezes a população de Faro e de Bragança, respectivamente, pelo que seria de esperar pouco mais do triplo das ligações entre as cidades holandesas, por comparação com as portuguesas. Mas de seis para 55!? Lisboa e o Porto têm, aproximadamente, o mesmo número de habitantes de Haia e de Eindhoven e, mesmo assim, as cidades holandesas ainda vencem por 100 contra 19 ligações em comboio (apenas num sentido)!!! Ainda por cima, entre as duas cidades neerlandesas, há comboios das 5h00 à meia-noite, enquanto, em Portugal, apenas há serviço entre pouco antes das 6h00 e as 21h00 (com excepção para um comboio regional, que vai devagarinho, pela linha do Norte acima, entre a 1h30 e as 5h30). Até uma aldeola do Limburgo com 3.660 habitantes [6] tem quase tantos autocarros por dia (88) para a aldeia ao lado (que tem uns respeitáveis 13.522 habitantes) como o centro do Porto para minha casa (128 ligações), que fica numa área densa da cidade! O Jarrett [7] já explicou a importância da frequência na qualidade dum serviço [8]: quanto mais tiver de esperar pelo próximo veículo, maior é a vontade de ir de carro.

Finalmente, a última razão é a fiabilidade do serviço. No Norte da Europa, quando se planeia uma viagem na Internet [9, 10, 11], fica-se a saber exactamente a que horas se parte e a que horas se chega, ao minuto; e, quando se realiza a viagem de facto, esse horário é escrupulosamente cumprido. Por seu turno, o Itinerarium.net [12] dá tempos médios de espera e tempos de viagem aproximados e diz qualquer coisa como: «apanhe um autocarro ou o outro, dá no mesmo»; e raramente os tempos de viagem, mesmo aproximados, se cumprem na realidade. Em Utreque, os horários afixados nas paragens estabelecem uma margem de erro de quatro minutos (mais ou menos dois por referência ao horário oficial). No Porto, os horários afixados nas paragens estabelecem uma margem de erro de dez (!) minutos (mais ou menos cinco, por referência ao horário oficial). No Limburgo, certo dia, o motorista não me deixou validar o bilhete.

— Estamos em greve — explicou-me.

Em dia de greve dos transportes, nos Países Baixos, o serviço mantém-se inalterado, mas os cobradores ou agentes únicos deixam (obrigam) os passageiros a viajar sem pagar. Em Portugal, são demasiadas as reportagens sobre passageiros indignados por não conseguirem chegar ao trabalho [13]. Se eu não tenho a certeza de chegar a horas, mais me vale ir de carro.

São estes, mais do que o preconceito ou o comodismo, os motivos que me levam a andar de carro em Portugal, mas não no estrangeiro.