Por Jarrett Walker [a]

Na sequência dos meus artigos anteriores [2], muitos leitores podem tender a defender o eléctrico, por uma série de motivos. Eu não tenho nada contra a maioria dessas perspectivas, mas muitas delas não envolvem o argumento real que eu apresentei. Eu fui muito claro, por exemplo, ao afirmar que, quando eu digo que um eléctrico não vai levar alguém a qualquer lugar mais rápido do que um autocarro, não estou a dizer que esse é o único critério que importa, nem estou a exprimir uma opinião sobre eléctricos, em geral. Estou apenas a apontar que os eléctricos têm essa característica e que eles são especiais, entre os nossos principais projectos de investimento em transporte colectivo, a esse respeito.

Muitos leitores poderão também aventar que o desinteresse ou desagrado generalizado em relação ao autocarro continuará a ser um valor cultural absoluto; e, neste ponto, eu realmente discordo. Vivemos uma época de mudanças consideráveis na cultura dos transportes, cada vez mais impostas a nós por uma mudança no cálculo sobre o que funciona e o que conseguimos sustentar. Eu vi mudanças monumentais de atitude nas quase três décadas que levo observando este ramo e, por isso, instintivamente, eu dou mais peso aos valores que provaram ser estáveis ao longo dos séculos — como a necessidade de poupar tempo de viagem e dinheiro — do que às associações negativas que podem ter-se acumulado em torno dos autocarros, nalgumas cidades, mas não noutras, apenas no último meio século. Quando as pessoas enfrentam uma escolha difícil entre manter seus preconceitos ou economizar tempo ou dinheiro, os preconceitos podem mudar muito rápido.

Deixem-me repetir: o meu propósito aqui não é louvar ou condenar o eléctrico em abstracto. Mas, como técnico de planeamento de transporte colectivo, eu aprendi a questionar afirmações radicais em nome de qualquer tecnologia, incluindo muitas tecnologias relacionadas com autocarros. Os profissionais do meu ramo são treinados para fazer uma pergunta diferente:

— Em primeiro lugar, o que estamos a tentar fazer? Em segundo lugar, qual é a melhor ferramenta para fazê-lo?

Eu adoro ver uma casa construída, logo eu respeito o papel dos martelos. Mas, se o leitor se apaixonar pelo martelo em vez da casa, então vai andar por aí à procura de pregos para martelar; e esse não é o caminho para construir o melhor casa possível.

A diversidade de necessidades de transporte colectivo em cada cidade é tão grande e geografia de cada corredor tão diferente, que a decisão sobre o modo correcto tem de ser feita corredor a corredor. O novo Plano Conceptual da Rede de Eléctricos [3] de Portland reconhece este facto, mas todo o âmbito e a definição do estudo ainda é preocupante. A questão enquadrada pelo estudo não era: «quais são as nossas necessidades de transporte e como é que vamos satisfazê-las?» Em vez disso, o estudo foi enquadrado como: «queremos eléctricos! então, onde é que vamos colocá-los?».

Um plano donde poderíamos colocar eléctricos não é um plano de como atender às necessidades de transporte colectivo do centro da cidade de Portland. Se o objectivo primordial do Departamento de Transportes de Portland for realmente «instalar tantos eléctricos quanto possível», muitas dessas necessidades não serão satisfeitas e perder-se-ão muitas oportunidades para a eficiência e a criatividade.

Eu tenho o maior respeito pelo consultor principal do estudo e sei que ele entende estes princípios. O seu plano reconhece, até onde a estrutura do documento, centrada no eléctrico, permite, que a rede do futuro será uma mistura de tecnologias. Eu espero que isso signifique que cada rua vai ter o modo que realmente serve as suas necessidades. Espero que em Portland, o próximo passo seja dizer:

— Certo, agora sabemos que podemos colocar um eléctrico na Rua Belmont. Então, vamos estudar esse corredor e debater o que deveríamos tentar fazer naquela rua, equilibrar os diferentes objectivos, e então — somente depois de estarmos de acordo quanto aos nossos objectivos — seleccionar a tecnologia que melhor atinge essas metas.

Nenhum consultor de planeamento de transporte colectivo responsável iria questionar uma linha de eléctricos que resultasse desse tipo de pensamento. Espero que seja a direcção que Portland, e outras cidades, vão seguir.

Mas, quando o pensamento começa com a apologia duma tecnologia, existe o risco de se produzir um serviço de transporte colectivo de qualidade inferior, porque, quando é preciso chegar a um acordo, o pensamento que dá prioridade à tecnologia tende a sacrificar os objectivos para salvar a tecnologia. Para usar minha analogia anterior, o leitor vai construir uma casa de segunda qualidade, porque o leitor não estava realmente focado na construção da casa; estava antes concentrado no quanto gosta do seu martelo.

Nós vimos isto acontecer nos dias finais do projecto de monocarril de Seattle (1996-2005). Como os custos escalaram e o apoio secou, o ​​último movimento dos proponentes foi encurtar a linha, reduzindo seus benefícios, porque o seu primeiro dever não era servir as necessidades do corredor, mas construir um monocarril a todo o custo. Eles sacrificaram o objectivo real da tecnologia a fim de salvar a própria tecnologia e, nesse caso, acabaram com nada. Se o projeto de monocarril de Seattle tivesse sido definido como «projecto de transporte colectivo rápido do Noroeste e Oeste de Seattle», encarregue de determinar os objectivos da comunidade e seleccionando a melhor tecnologia para atingi-los, eu aposto que, agora, teríamos algum tipo de transporte colectivo rápido naquele corredor. Poderíamos até ter um monocarril. Em vez disso, como a organização estava comprometida com a tecnologia em primeiro lugar, acabou por falhar.

Outra forma de descrever o pensamento que dá primazia à tecnologia é que ele tende a seleccionar e a enfatizar os objectivos que a tecnologia favorecida é boa a atingir. É como se nós disséssemos ao nosso arquitecto:

— Projecte-me uma casa que exija muitos pregos.

Se uma comunidade realmente se ergue e diz: «os objetivos atendidos pelo eléctrico são exactamente os nossos objectivos!», então eles devem ter um eléctrico. Mas, muitas vezes, o defensor da tecnologia acaba por filtrar as metas com base em se elas encaixam na sua tecnologia, em vez de se elas são os verdadeiros objectivos da comunidade.

O leitor pode construir muito e muito depressa, se vender o pensamento «tecnologia primeiro» em larga escala. Certamente, foi assim que nós obtivemos o sistema de autoestradas interestaduais, que (literalmente) atropelou um monte de valores importantes na sua busca de implementar uma determinada tecnologia em todos os lugares. Mas, pelo amor do planeta, eu espero que Portland seja mais esperta do que isso, porque muitas, muitas cidades irão seguir o seu exemplo. Não deixe ninguém dizer-lhe que o eléctrico fez de Portland uma grande cidade habitável. Portland é uma grande cidade habitável por causa de décadas de trabalho duro no planeamento abrangente e na construção de consenso, levando a muitas acções diferentes, e muitas tecnologias diferentes, que, em conjunto, servem as metas que as pessoas realmente partilham. O eléctrico é apenas uma dessas tecnologias. É um resultado, não uma causa, do sucesso de Portland.


Nota:

a: Este artigo foi adaptado do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).