Por Satoshi Kanazawa [a]

A investigação em Psicologia Evolutiva e áreas afins descobriu a maneira distinta de operar das mentes dos homens e das mulheres. Poucos deram maior contribuição para a descoberta do «cérebro masculino» e do «cérebro feminino» do que o Simon Baron-Cohen, da Universidade de Cambridge, o Bernard Crespi, da Universidade Simon Fraser, e o meu estimado colega na LSE, Christopher Badcock. Então, o que é um cérebro masculino? E o que é um cérebro feminino?

O cérebro masculino é caracterizado pela tendência para a sistematização (para usar o termo de Baron-Cohen) e pensamento mecanicista (para usar o termo de Crespi e Badcock). «Sistematização» é a tendência para analisar, explorar e construir um sistema. O sistematizador percebe intuitivamente como as coisas funcionam, ou extrai as regras subjacentes que governam o comportamento dum sistema. O seu objectivo é compreender e prever o sistema, ou inventar um novo.

Pelo contrário, o cérebro feminino é caracterizado pela tendência para a empatia (para usar o termo de Baron-Cohen) ou pensamento mentalista (para usar o termo de Crespi e Badcock). «Empatia» é a tendência para identificar as emoções e os pensamentos doutra pessoa e para responder com a emoção apropriada. A empatia ocorre quando sentimos uma reacção emocional apropriada, em resposta às emoções da outra pessoa. O seu objectivo é compreender a outra pessoa, prever o seu comportamento, e ligar ou entrar em ressonância emocional.

A diferença entre o «mecanicismo» e «mentalismo» é semelhante à diferença entre «sistematização» e «empatia». Em suma, o mecanicismo tem a ver com entender as coisas (a física); o mentalismo te a ver com compreender as pessoas (a psicologia).

Há muitas excepções individuais a qualquer generalização empírica, mas as excepções não invalidam as generalizações. Por exemplo, há muitas mulheres que são mais altas do que o a média dos homens e há muitos homens que são mais baixos do que a média das mulheres. Mas a generalização: «os homens são, em média, mais altos do que as mulheres» permanece válida. Da mesma forma, nem todos os homens têm um cérebro fortemente masculino e nem todas as mulheres têm um cérebro fortemente feminino, mas existem diferenças médias entre homens e mulheres, e os homens são muito mais propensos a ter o cérebro masculino e as mulheres são muito mais propensas a ter o cérebro feminino.

Estas diferenças sexuais surgiram durante o curso da evolução humana, porque os homens e as mulheres muitas vezes enfrentaram diferentes pressões selectivas. Os homens adquiriram capacidades de sistematização e mecanicistas porque tais capacidades eram necessárias para inventar e fabricar ferramentas e armas. Ao mesmo tempo, a baixa capacidade empática era útil aos homens, para tolerar a solidão durante as longas viagens de caça e migração, e para cometer os actos de violência interpessoal e de agressividade necessários para a competição masculina (é muito difícil matar outras pessoas, se se tiver sentimentos fortes por elas). Da mesma forma, as mulheres adquiriram a empatia e capacidades mentalistas, porque facilitam vários aspectos da maternidade, como antecipar e compreender as necessidades do bebé, que ainda não pode falar, ou fazer amigos e aliados em novos ambientes, situação em que as mulheres ancestrais se encontravam frequentemente, após o casamento (no ambiente ancestral, as mulheres deixavam o seu clã e casavam-se num grupo vizinho após a puberdade, uma prática necessária para evitar a consanguinidade).

O falecido William D. Hamilton, o biólogo evolutivo de Oxford que é universalmente considerado «o melhor darwinista desde Darwin», expressou esta ideia da melhor forma, ao observar:

— As pessoas dividem-se, mais ou menos, parece-me, em dois tipos, ou melhor, ao longo dum contínuo entre dois extremos. Há pessoas de pessoas e pessoas de coisas.

O que o recente trabalho de Baron-Cohen e Crespi e Badcock mostra é que, em grande medida, as pessoas de pessoas são mulheres, e as pessoas de coisas são homens.

As melhores capacidades de sistematização de mecanicistas dos homens são as principais razões por que estes são melhores do que as mulheres em Matemática, Física e Engenharia, porque todos esses campos lidam com vários «sistemas» racionais, regidos por regras. As capacidades empáticas e mentalistas superiores das mulheres são as principais razões pelas quais estas são melhores em línguas e por que elas são melhores juízes de carácter. As mulheres também dominam na área da Primatologia, a qual, tal como a maternidade, exige compreender e ler as mentes de pessoas com quem não se pode comunicar através da linguagem.

Mas estas diferenças sexuais adaptativos falham às vezes e manifestam-se de formas cómicas. Por exemplo, a maior tendência dos homens para a sistematização e o pensamento mecanicista leva-os muitas vezes a tentar «perceber» as suas relações com as namoradas, como se fossem sistemas lógicos ou um carburador. Eles não percebem que as relações envolvem outros seres humanos com emoções e sentimentos, que nem sempre são racionais e lógicos, e então tratam as outras pessoas como se fossem máquinas. Da mesma forma, as mulheres muitas vezes falam com os seus carros e as fotocopiadoras, como se estes tivessem mentes e sentimentos. Elas não percebem que não podem realmente estabelecer uma relação com os seus carros e fotocopiadoras, porque estes não têm sentimentos ou emoções; eles não têm «mentes» que possam ser lidas.

Em geral, no entanto, estas diferenças entre os sexos são adaptativas​​. Os homens e as mulheres são diferentes, porque os seus cérebros funcionam de formas diferentes e, por consequência, ambos os sexos têm diferentes pontos fortes e fracos. Mas o que acontece quando os seus cérebros são demasiado fortes numa direcção ou na outra? O que acontece se alguém tem um «cérebro masculino extremo» ou um «cérebro feminino extremo»? Esse é o tema do próximo artigo.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).