Por Gustavo Martins-Coelho

Comecei a minha colaboração no «Consultório» [1], na Rádio Voz da Ria [2], perguntando o que é a Saúde Pública [3]. Depois de procurar a definição da especialidade, descrevi as funções do especialista — do médico de saúde pública, portanto [4]. E, em seguida, lancei-me alegremente a falar de questões de saúde, pública [5, 6, 7, 8] e não só [9, 10]. Esta semana, ao preparar mais uma crónica, questionei-me qual a relevância disto tudo.

Ajudou a esse rebate de consciência uma conversa que tive, em que me disseram qualquer coisa como:

— A Medicina já descobriu praticamente tudo; já há muito pouco para avançar em termos da capacidade de curar.

Ora, nada mais falso! Em primeiro lugar, porque, obviamente, há muito mais para descobrir do que o que já sabemos (seja na área médica, seja em todas as outras áreas científicas). Em segundo lugar, porque a intenção curativa da Medicina é um paradigma ultrapassado. Mas, fundamentalmente, porque os grandes avanços da Medicina de que gostamos de nos orgulhar foram, na realidade, obtidos à custa, principalmente, da Saúde Pública.

Ora, a Saúde Pública, como vimos, tem várias vertentes [3]; e este «Consultório» [1] é uma delas. As minhas «perspectivas em saúde», ao microfone da rádio, têm dois objectivos fundamentais: por um lado, explicar os meandros dos cuidados de saúde; por outro lado, educar para a saúde. Ambos os objectivos cabem dentro do âmbito da Saúde Pública; e creio que são ambos importantes. Conhecer o funcionamento do sistema nacional de saúde, saber como é financiado o Serviço Nacional de Saúde, perceber a diferença entre cuidados primários e secundários, tomar consciência da influência da União Europeia (e doutras instituições internacionais) na nossa saúde — tudo isto contribui para capacitar os ouvintes para tomarem decisões, quer como doentes, quer como cidadãos; decisões essas que podem afectar não só a sua própria saúde, mas também a saúde dos restantes membros da nossa sociedade. Já educação para a saúde tem um papel a desempenhar na consciencialização da importância da prevenção e de que forma esta deve fazer-se.

Mas acredito que não vale a pena insistir nem numa coisa, nem na outra — isto é, não vale a pena nem falar de política de saúde nem ensinar medidas preventivas disto ou daquilo — se não estiver bem claro por que é importante falarmos disso.

Comecemos, então, pela prevenção. Lá diz o povo que mais vale prevenir que remediar… Alguma razão deve haver para o povo dizer isto, não deve? O meu caro amigo Hugo Pinto de Abreu [1, 11] intuiu a resposta de forma espantosa na sua primeira crónica [12] do «Consultório» [1]. Disse ele:

A Medicina salva vidas? É certo! Mas, o que seria da Medicina se não houvesse, por exemplo, saneamento básico?

O saneamento básico é, talvez, uma das primeiras e mais importantes medidas de saúde pública postas em prática no mundo, por permitir isolar os desperdícios e os dejectos da água para consumo humano, interrompendo, assim, o ciclo de propagação de doenças como a cólera, a febre tifóide, a hepatite e a poliomielite. E, não tenhamos dúvidas, o saneamento básico do senhor Bazalgette [13] fez mais pela saúde dos londrinos, no século XIX, do que todos os hospitais da cidade juntos!

Quando olhamos para a percentagem da população dum dado país que tem acesso a saneamento básico e a comparamos com a esperança média de vida nesse país, encontramos uma relação positiva: em princípio, quanto mais gente tem acesso a saneamento, maior a esperança média de vida [14]. Nos extremos dessa linha, encontram-se a Serra Leoa e o Japão: na Serra Leoa, ao nascer, a esperança média de vida é de apenas 45 anos e apenas 13% da população tem acesso a saneamento básico; no Japão, a esperança média de vida, a mais elevada no mundo, é de 83 anos e toda a população tem acesso a saneamento básico. Um estudo [15] indica que aumentar em 1% a população coberta por saneamento básico, num dado país, faz aumentar a esperança média de vida ao nascer, nesse país, em dezoito dias. Dito assim, pode não parecer grande coisa. Mas voltaremos a este tema, para perceber por que é, de facto, uma grande coisa!