Por Gustavo Martins-Coelho

Embora não seja um utilizador muito convicto do Facebook, sou um utilizador frequente, por força da gestão da página do meu blogue — a «Rua da Constituição» [1], onde se encontram publicadas todas as crónicas deste «Consultório…» [2] — e da utilização do serviço de mensagens; de modo que acabo por acompanhar os murais dos «amigos» [a]. Então, num desses murais de «amigos do Facebook», vi, em tempos, a seguinte pergunta:

— Esperar vinte e cinco horas não mata o conceito de «urgência»?

Não havia qualquer explicação ou relato de caso a acompanhar a pergunta, mas eu achei que a mesma merecia, ainda assim, resposta do ponto de vista teórico, mesmo não me podendo pronunciar em particular sobre o eventual caso concreto que terá dado origem a tal interrogação. Guardei a frase, para me debruçar sobre o assunto com calma. Anteontem, por coincidência, num jantar em que estive presente, o mesmo tópico veio à baila; e decidi que estava na hora de tratar do assunto. Optei por fazer disso o tema do meu «Consultório…» [2] desta semana, na esperança de que esta reflexão possa aproveitar aos ouvintes da Rádio Voz da Ria [5].

Quando um doente entra no serviço de urgência, a primeira pessoa que o atende é um enfermeiro. Depois de fazer algumas perguntas, atribui-lhe uma pulseira, com uma de cinco cores: vermelho, laranja, amarelo, verde e azul. Está feita a triagem.

Esta pulseira serve para definir a prioridade no atendimento. Na ausência de triagem, a ordem de chegada define a ordem por que se é atendido. Mas, como é fácil de perceber, nem todas as pessoas que recorrem aos serviços de urgência o fazem em igualdade de circunstâncias — há doentes que correm risco de vida, se não forem tratados imediatamente, e outros há que, se formos bem a ver, até nem estão propriamente doentes… A triagem serve, portanto, para garantir que quem pode esperar um pouco, sem com isso comprometer a sua saúde, não tira a vez a quem a vida depende duma resposta imediata por parte dos profissionais de saúde.

As cores das pulseiras têm um significado:

  • As pulseiras vermelhas significam: «emergência — com risco imediato de vida»; o doente não pode esperar e, por isso, é atendido imediatamente;
  • As pulseiras laranja significam: «muito urgente — com elevado risco de vida»; o doente necessita de ser atendido o mais rapidamente possível, idealmente em dez minutos, no máximo;
  • As pulseiras amarelas significam: «urgente»; o doente precisa de ser avaliado, mas pode esperar um pouco — uma hora no máximo, em princípio;
  • As pulseiras verdes significam: «pouco urgente»; é um caso menos grave, que, na verdade, nem sequer precisa de recorrer ao serviço de urgência, podendo ser acompanhado no centro de saúde, pelo que pode esperar duas horas sem problema, se tudo correr bem;
  • Finalmente, as pulseiras azuis significam: «não urgente»; o doente não tem problemas recentes e pode ser acompanhado no centro de saúde, ou até basta ir à farmácia, para resolver o seu problema — será atendido no final de todos os outros, quando houver tempo (tentaremos que não espere mais de quatro horas, mas não prometemos).

Este sistema de triagem garante que uma pessoa que espera vinte e cinco horas pode fazê-lo sem prejuízo para a sua saúde. Mais: esperar vinte e cinco horas significa, provavelmente, que poderia ter esperado uma ou duas semanas por uma consulta com o seu médico de família, pelo que, bem vistas as coisas, até poupou uns dias de espera.

Obviamente que o sistema não é infalível, mas, apesar de tudo, os benefícios, em termos globais, suplantam largamente os prejuízos que podem acontecer individualmente.


Nota:

a: Amigos entre aspas, pois, conforme escreveu o Hugo [2, 3] há cerca dum ano [4], a lista de «amigos» do Facebook não passa duma versão moderna da lista de contactos duma agenda, nela podendo haver muito mais gente, para além dos nossos amigos.