Por Satoshi Kanazawa [a]

Tanto as capacidades de sistematização e mecânicas características do cérebro masculino, como as de empatia e mentalistas características do cérebro feminino, se encontram normalmente distribuídas na população. Isto significa que a maioria dos homens e a maioria das mulheres têm os cérebros típicos do seu sexo na zona moderada, mas algumas pessoas têm versões extremamente fortes ou fracas (da mesma forma que a maioria das pessoas é de estatura média, mas algumas são extremamente altas ou baixas). O que são o «cérebro extremamente masculino» e o «cérebro extremamente feminino»?

Simon Baron-Cohen revolucionou o estudo do autismo e das doenças desse espectro (tais como a síndrome de Asperger), ao sugerir que o autismo é uma manifestação dum «cérebro extremamente masculino». O cérebro masculino tende para a sistematização e o pensamento mecanicista, tratando as outras pessoas como se estas fossem sistemas lógicos ou máquinas. Se se levar tal tendência ao extremo, acabar-se-á tratando todos como se estes fossem máquinas, sem mente nem sentimentos. Isto, de acordo com Baron-Cohen, é a essência do autismo, o que ele chama de «cegueira mental». As pessoas autistas são incapazes de «ver» as mentes e as emoções das outras pessoas. Na verdade, um autista nem sequer sabe que as outras pessoas têm mentes independentes da sua; um autista tende a assumir que as outras pessoas sabem e pensam exactamente o mesmo que ele. A noção de Baron-Cohen do autismo como um cérebro extremamente masculino explica por que a esmagadora maioria dos autistas (quatro em cada cinco) são homens e há relativamente poucos autistas do sexo feminino (embora, mais uma vez, existam excepções ao padrão geral — a ocasional «menina com cérebro de menino»).

Mesmo depois de Baron-Cohen compreendeu a essência do autismo como um cérebro extremamente masculino, a natureza do outro extremo, o «cérebro extremamente feminino», manteve-se um quebra-cabeça, até que Bernard Crespi e Christopher Badcock propuseram uma teoria que, apesar de conter diferenças subtis em relação à de Baron-Cohen, pode apontar alguma luz sobre o «cérebro extremamente feminino». Enquanto Baron-Cohen sugere que o autismo resulta de «cérebros extremamente masculinos», Crespi e Badcock propõem que o autismo resulta de cérebros paternos (sob o controle de genes do pai) e a esquizofrenia paranóide de cérebros maternos (sob o controle de genes da mãe). Eu recomendo ao leitor interessado o seu artigo na revista Behavioral and Brain Sciences.

O cérebro feminino tende para o pensamento empático e mentalista, tratando máquinas e objectos como se fossem pessoas. Elas atribuem mentes, pensamentos e sentimentos a objectos inanimados. Fazendo o palarelismo com a teoria de Baron-Cohen para o cérebro masculino e com a proposta de Crespi e Badcock, estamos perante a essência da esquizofrenia paranóide. Os esquizofrénicos paranóides ouvem vozes onde não há pessoas e imaginam mentes e pensamento onde eles não existem, por exemplo, quando acreditam que as outras pessoas estão a falar ou a conspirar contra si, quando não é verdade. Os esquizofrénicos paranóides são hipermentalistas e inferem excessivamente as mentes e as emoções das outras pessoas, assim como os autistas são hipomentalistas e inferem insuficientemente as mentes e as emoções das outras pessoas.

No seu artigo na revista Behavioral and Brain Sciences, Crespi e Badcock fazem uma análise muito convincente do autismo e da esquizofrenia paranóide em paralelo. Extrapolando para a teoria de Baron-Cohen, a imagem parece ficar completa. Quando o cérebro é «demasiado masculino», demasiado sistematizador, demasiado mecanicista, o indivíduo torna-se autista. Quando o cérebro é «demasiado feminino», demasiado empático, demasiado mentalista, o indivíduo torna-se esquizofrênico paranóide. Se o «cérebro extremamente masculino» dum autista é «cego à mente», então é possível que o «cérebro extremamente feminino» dum esquizofrénico paranóide seja «cego à lógica».


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).