Por Gustavo Martins-Coelho


A fraude existe em todo o lado; o chico-espertismo também. Não sendo um especialista no tema, creio, do meu canto leigo, haver duas variáveis que devem ser levadas em conta na análise da fraude: uma é a sua dimensão, quer em termos de frequência (quantas vezes é cometida, quantas pessoas estão envolvidas, etc.) quer de gravidade (quanto dinheiro é desviado, se for o caso, quantas pessoas são prejudicadas, etc.); a outra é a atitude perante a fraude.

Para medir a primeira destas variáveis, temos o célebre Índice de Percepção da Corrupção [1] da Transparência Internacional [2], que nos diz que Portugal ocupa actualmente um não tão honroso como isso 33.º lugar (em 177 países), muito atrás dos países nórdicos, que lideram a tabela. Confesso que tenho algumas dúvidas quanto a este índice, dado ser baseado na «percepção» da corrupção, por parte de especialistas no tema. Ora, a opinião dos especialistas, por muito válida que seja, é uma opinião [3] e nem sempre a opinião corresponde à realidade, conforme fica patente, por exemplo, quando medimos a percepção da qualidade dos serviços de saúde nos diversos países e a comparamos com indicadores do estado de saúde da população. Nesse aspecto, o Barómetro Global da Corrupção [4], também da Transparência Internacional [2], parece-me ser um indicador mais interessante, pois diz, preto no branco, que 3% dos Portugueses subornaram, em 2013, uma entidade que presta serviços públicos. Curiosamente, este Barómetro coloca o nosso país em sexto lugar em 95 países sondados — mais à frente, proporcionalmente, do que a percepção dos nossos especialistas.

Porém, não conheço nenhuma medida da segunda variável — da atitude do cidadão comum perante a fraude e a corrupção.

Por que é que eu, na minha condição de leigo, acho que é importante uma tal medida? Porque creio que a aprovação ou a reprovação social duma determinada acção pode condicionar a sua realização. A este propósito, julgo apropriado relatar dois casos que me parecem exemplares do que pretendo afirmar. Ambos se passaram nos Países Baixos, onde residi durante uns tempos, e envolvem o trânsito — um dos reinos do chico-espertismo, que não é mais do que uma forma leve de fraude — e quem não é fiel no pouco…

Hoje, conto o primeiro caso. Certo dia, vinha a pé do trabalho, quando vi um carro parado, a dobrar uma esquina, e outro, virado de frente para o primeiro, à saída da rua. Tratava-se duma rua de sentido único, «de cá para lá», tomando como ponto de referência o meu local de observação. Deixei-me ficar, a ver no que aquilo ia dar… Nos Países Baixos, vi mais carros em contramão por ruas de sentido único do que estava habituado em Portugal; todos eles eram conduzidos por homens com aspecto de imigrante magrebino.

Provavelmente, a minha amostra estará enviesada, mas os factos são para ser relatados tal como foram observados. Tire o leitor as suas conclusões — mesmo que isso implique apodar-me de xenófobo. Bastaria o carro que pretendia entrar na rua pelo sentido certo recuar um par de metros e o outro veículo, que já fizera praticamente a rua toda em contramão, poderia sair e prosseguir o seu caminho. Mas não foi isso que aconteceu: o veículo que circulava no sentido correcto não arredou e o outro não teve outro remédio senão retroceder uns bons duzentos metros, por uma rua com uma via de trânsito apenas e carros estacionados dos dois lados, até ao ponto mais próximo em que ambos os carros teriam espaço para cruzar-se, arrumar-se para o lado e deixar passar o outro condutor. Depois de assistir àquilo, fui para casa a magicar que, fora isto em Portugal, quem teria recuado seria o automobilista que seguia no sentido correcto, «porque não lhe custava nada facilitar» — e a verdade é que não custava. Mas, nos Países Baixos, ao contrário do nosso País, não se espera que quem está do lado da razão tenha de contemporizar com os prevaricadores.

Uns dois ou três anos depois, sucedeu-me o mesmo em Portugal. Aveiro é a cidade da contramão. Nunca vi, no nosso País, tanta gente a circular no sentido proibido de ruas de sentido único, como em Aveiro! Estava, pois, em Aveiro, no ano passado, e vi-me na posição do carro que avançava pelo sentido correcto, sendo confrontado com um outro veículo em contramão, que lhe obstrui a passagem. Resolvi testar a minha teoria; ainda para mais, pensei comigo que tinha tempo e estava a tocar uma canção que muito aprecio no rádio. A outra condutora devia estar a ouvir a mesma canção, pois deixou-se ficar na sua posição os três minutos que a canção durou. Piscou as luzes de estrada por duas vezes ínterim, a que eu lhe respondi com igual sinal, e, quando a música finalmente mudou, avançou, subiu o passeio, parou ao meu lado, abriu a janela do carro e gritou-me:

— Eu estava a ser civilizada e você não me cedeu a passagem!

— Isto é uma rua de sentido único e a senhora vem em contramão; já se apercebeu disso?

— Mas, se eu não sair por aqui, saio por onde?

— Contorna o quarteirão e vem pela rua paralela a esta, que é de sentido inverso.

Neste ponto dos sucessos, a padeira da padaria em frente veio tomar conta da ocorrência e sentiu-se na obrigação de explicar que, até às obras recentes, a rua fora de dois sentidos. Aparentemente, uma vez de dois sentidos, para sempre de dois sentidos…

Depois de me dizer novamente que, ao não «facilitar», estava a ser muito pouco civilizado, a senhora prosseguiu, por cima do passeio, até ter contornado completamente o meu carro, e seguiu viagem.

Como o texto já vai longo, deixo hoje o leitor com esta história, prometendo relatar, para a semana, uma segunda história passada no mesmo país e discutir a moral que as duas nos trazem.