Por Gustavo Martins-Coelho


Na semana passada, contei a primeira de duas histórias exemplares [1] a respeito de diferenças na forma como o povo português e o holandês encaram a prevaricação.

Hoje, pretendo narrar uma segunda história, também sucedida nos Países Baixos, que vem reforçar a mesma ideia, e tentar explicar o meu ponto a respeito do papel da pressão social na redução da fraude e da corrupção.

Desta vez, a história passou-se no autocarro.

As paragens de autocarro neerlandesas são perfeitas. Os passeios encontram-se sobrelevados, de modo que, juntando-se aos pisos rebaixados dos autocarros, transformam a entrada e a saída dos passageiros em mais um pequeno passo em frente, sem ser necessário subir ou descer degraus, nem recordar o britânico cuidado com «mind the gap». Além disso, as paragens encontram-se marcadas em toda a extensão dos autocarros que as servem, pelo que é perfeitamente claro onde começam e onde acabam — logo, onde é permitido e proibido estacionar.

Um carro estacionado em cima duma paragem é um evento tão raro como um raio cair duas vezes no mesmo sítio. Mas acontece. Tanto assim é, que eu vi acontecer, a partir de dentro do autocarro, que parou naquela paragem, tão perto do passeio quanto o obstáculo automóvel lhe permitia.

Os autocarros neerlandeses têm também o seu quê de notável. A maioria deles são articulados; e até os há com duas articulações! Para facilitar a vida aos motoristas, as rodas de trás viram em sentido oposto às da frente, quando o motorista gira o volante. Por consequência, quando um autocarro vira à esquerda, a traseira faz um movimento em arco para a direita; este é o caso na saída duma paragem.

Nesta paragem de que eu falava, o movimento para a direita da traseira, no momento em que o autocarro retomou a marcha, após a largada e a tomada de passageiros, impeliu-a contra o lado esquerdo do carro que lá se encontrava estacionado, riscando-o e fazendo o espelho retrovisor tombar. O motorista do autocarro, ou não se apercebeu, ou não fez caso. Os passageiros, esses, deram conta do sucedido, mas o único comentário que ouvi foi:

— Ninguém o mandou estacionar ali.

Ainda não vi um autocarro danificar um carro estacionado numa paragem em Portugal. Uma das razões para isso não me ter ainda sucedido é o facto dos autocarros portugueses, ao contrário dos holandeses, não hesitarem em parar no meio da rua, a uma distância, às vezes, de mais dum metro do passeio, quando as paragens se encontram obstruídas, ainda que parcialmente. Pelo contrário, os motoristas holandeses fazem gáudio de encostar sempre tanto quanto possível o autocarro ao passeio. Mas, se uma tal colisão vier a suceder numa paragem portuguesa, não me custa muito imaginar que a empresa operadora daquela linha venha a ter de ressarcir o condutor prevaricador; certamente, nenhum dos passageiros dirá:

— Ninguém o mandou estacionar ali.

O que estas duas histórias revelam é aquilo que eu considero uma diferença cultural enorme entre os dois países de que tenho falado, ao nível da tolerância para com a prevaricação. Como eu disse anteriormente, a prevaricação no trânsito, o chico-espertismo, é uma forma leve de fraude. É uma situação em que o prevaricador desrespeita as normas em seu proveito, sem consideração pelas consequências deletérias que tal inobservância pode vir a ter sobre terceiros. Outros tipos de fraude há, em que o chico-esperto leva 4.900 milhões de euros não se sabe bem para onde, igualmente ao arrepio das normas e sem a mínima preocupação com as consequências para os seus muitos clientes (e não só para os clientes) dessas suas acções.

O que eu peço é simples: que nos indignemos com a fraude — grande e pequena! Que paremos de aceitar complacentemente a fuga ao fisco — que peçamos a factura, porque é preciso que todos colaborem, por pouco que seja, no financiamento do Estado [2] e não porque esperamos com isso tornar-nos merecedores dum carro de alta cilindrada. Que paremos de criticar o subordinado incompetente na sua ausência — que o confrontemos directamente com as suas limitações e o ajudemos a colmatá-las — ou tenhamos a coragem de lhe explicar que não foi talhado para aquela função e que terá de encontrar outra que mais se lhe adeque. Que as penalizações previstas na lei sirvam para punir, efectivamente, os faltosos e não como arma de arremesso contra os ódios pessoais. Que denunciemos os crimes a que assistimos — seja grandes crimes económicos (decerto, o contabilista [3] sabia o que o sr. Salgado andava a fazer — por que manteve o silêncio?), seja outro tipo de crimes. Que um senhor acusado de roubar uma câmara [4] não ganhe as eleições para essa câmara enquanto está a ser julgado (uma coisa é a presunção de inocência, outra coisa é tomar precauções); e que os seus apaniguados não voltem a ganhar, já depois dele ter sido condenado. Que, quando vamos jantar fora com os amigos, o serão não inclua aplaudir as histórias rocambolescas de quem fez mundos e fundos à margem da lei. Em suma, que a mentalidade deixe de ver o mal em ser apanhado e passe a ver o mal onde ele realmente está: em prevaricar.

Como sociedade, precisamos urgentemente de passar a ver a honestidade como uma virtude a cultivar e não como sinónimo de burrice. E precisamos de fazer, duma vez por todas, com que o crime não compense.