Por Gustavo Martins-Coelho

Na semana passada, se bem se lembra o ouvinte, contei a minha ida, não à guerra de 1908 [1], mas à praia, no âmbito do Programa Nacional de Vigilância Sanitária de Zonas Balneares [2]. Conforme o ouvinte deve ter percebido, um dos pratos fortes do Programa é a vigilância da qualidade das águas balneares.

Então, para esta semana, achei por bem continuar a meter água no «Consultório…» [3], até porque o meu trabalho, esta manhã, envolve também águas — já não águas balneares, mas águas para consumo humano — a água que bebemos, portanto.

A propósito da vigilância da qualidade da água para consumo humano, quero relembrar uma curta cena do filme «Regresso ao futuro III» [4], em que a personagem principal, o Marty, viaja no tempo, até ao século XIX, a fim de resgatar o seu amigo Doc Brown, que está em vias de ser morto por um pistoleiro fora-da-lei, por uma questão de oitenta dólares. Os três filmes desta trilogia são bem dispostos e oferecem uma tarde ou um serão bem passados, longe de preocupações mundanas ou metafísicas, tendo uma legião de fãs espalhada pelo mundo.

A cena a que me refiro passa-se, então, logo à chegada do Marty ao século XIX. Por obra daquelas coincidências que só acontecem na ficção, a primeira pessoa com quem o viajante no tempo se depara é o seu trisavô Seamus, que lhe dá abrigo, roupa e uma refeição. Ora, durante a refeição, a trisavó do Marty, Maggie, pergunta-lhe se ele quer beber água, o que o Marty aceita de bom grado. A sua trisavó verte-lhe, então, um pouco de água dum jarro para o copo, mas o Marty, ao olhar para a cor da água que lhe puseram no copo, muda de ideias e opta por jantar «a seco» (não que lhe corra muito bem, pois logo de seguida quase parte os dentes num pedaço de chumbo do cartucho que matou o coelho). Eu não censuro o Marty por não querer beber a água: é que a que a trisavó Maggie lhe oferece é amarela e tem pequenas partículas suspensas, a flutuar…

Trouxe esta cena do filme «Regresso ao futuro III» [4] a lume, porque ela ilustra, ainda que talvez não fosse essa a intenção do realizador, o grande caminho que percorremos desde essa altura até aos nossos dias, em termos de qualidade da água para consumo humano.

Ainda há menos dum mês, falei sobre a importância do saneamento básico [5]. Esse foi um dos grandes progressos, em termos da qualidade da água, ao permitir separar as águas residuais da que se usa para beber, cortando, dessa forma o ciclo de contaminação cruzada, que provocava doenças epidémicas, como, por exemplo, a cólera. Não foi por acaso que, há uns anos, ao terramoto que houve no Haiti se seguiu um surto de cólera: com a destruição das (já de si periclitantes, diga-se de passagem) infraestruturas básicas, a separação entre águas residuais e para consumo deixou novamente de existir e o ciclo de contaminação e contágio da cólera pôde reinstalar-se.

Outro grande passo foi o fornecimento de água canalizada, através da rede pública. Transportada inicialmente através de aquedutos e distribuída pelos fontanários, hoje em dia, a água chega directamente até às nossas torneiras. Além da comodidade, esta água é tratada e, ao contrário das águas dos poços ou dos furos, tem a garantia de estar livre de bactérias capazes de provocar doenças, que podem ser graves e até mortais. É por isso que é recomendável o consumo de água da rede pública em todos os locais, em detrimento das captações próprias, as quais devem ser analisadas periodicamente, para garantir a sua qualidade.

A grande diferença entre o tempo dos trisavós do Marty e a actualidade, que a cena do filme que hoje relatei ilustra, é que hoje dispomos de água tratada, evitando o recurso a poços e a fontanários, que, não estando sob vigilância, oferecem riscos no seu consumo. A agravar a situação, comparativamente ao século XIX, temos hoje maior pressão sobre os aquíferos, proveniente da agricultura intensiva, da indústria e da maior quantidade de águas residuais que se produzem, nem sempre tratadas. Hoje em dia, temos a certeza de que o adágio «água é vida» é verdadeiro todos os dias, desde que tomemos as atitudes correctas na sua utilização.