Por Satoshi Kanazawa [a]

A religião é uma característica cultural universal. Os seres humanos em todas as sociedades conhecidas praticam algum tipo de religião. Portanto, é tentador acreditar que a religiosidade faz parte da evolução da natureza humana, que os seres humanos foram seleccionados pela evolução para ser religiosos. Bem, a resposta é sim e não.

No meu último artigo [2], discuti como a teoria da gestão do erro de Haselton e Nettle explica a leitura mental entre os sexos e por que os homens sempre sobrestimam o interesse sexual das mulheres em si. Uma das belas características da teoria da gestão do erro é a sua capacidade de explicar uma grande variedade de fenómenos. É verdadeiramente uma teoria universal.

Imagine o leitor que é o nosso ancestral, vivendo na savana africana há cem mil anos, e se depara com uma situação ambígua. Por exemplo, ouviu um ruído farfalhante por perto, à noite. Ou estava a caminhar pela floresta e um grande fruto cai do galho duma árvore em cheio sobre a sua cabeça. O que se passa?

Numa situação ambígua como estas, o leitor pode atribuir o fenómeno a forças impessoais, inanimadas e não intencionais (por exemplo, o vento soprando suavemente pode causar o ruído entre os arbustos e as folhas, ou uma fruta madura cai pela força da gravidade e acerta-lhe na cabeça puramente por acaso) ou a forças dotadas de personalidade, animadas e intencionais (por exemplo, um predador escondido no escuro, preparando-se para atacá-lo, ou um inimigo escondido nos ramos das árvores e atirando frutas contra si). A questão é: qual é a hipótese correcta?

Mais uma vez, a teoria da gestão do erro sugere que, na sua inferência, o leitor pode fazer um erro de tipo I, de falso positivo, ou de tipo II, de falso negativo, mas esses dois tipos de erro levam a consequências e custos muito diferentes. O custo dum erro de falso positivo é que o leitor se tornará paranóico: estará sempre a olhar em volta e para trás, procurando predadores e inimigos que não existem. O custo dum erro de falso negativo é que o leitor estará morto, assassinado por um predador ou um inimigo quando menos esperar. Obviamente, é melhor ser paranóico do que estar morto, pelo que também a evolução deve ter seleccionado as mentes que sobrestimam as forças dotadas de personalidade, animadas e intencionais, mesmo quando não existe nenhuma.

Vários estudiosos do tema chamam a essa tendência humana inata de cometer erros de falso positivo, em vez de falso negativo (e, por consequência, ser um pouco paranóico) «viés animista» ou «mecanismo de detecção de agência». Esses peritos argumentam que a origem evolutiva das crenças religiosas em forças sobrenaturais pode ter vindo de tal viés cognitivo inato para cometer erros de falso positivo em vez de erros de falso negativo e assim acreditar demasiado em forças dotadas de personalidade, animadas e intencionais, que estariam por trás de fenómenos de outra forma perfeitamente naturais.

O leitor vê um arbusto em chamas. O fogo poderia ter sido causado por uma força impessoal, inanimada, e não intencional (um raio quer atinge o mato e ateia o fogo), ou por uma força dotada de personalidade, animada e intencionais (Deus tentando comunicar consigo). O «viés animista», ou «mecanismo de detecção de agência», predispõe a optar por esta última explicação em detrimento da primeira. Esse mecanismo predispõe a ver as mãos de Deus em acção por trás de fenómenos naturais, físicos, cujas causas exactas são desconhecidas.

Segundo este ponto de vista, a religiosidade (a capacidade humana para crer em seres sobrenaturais) não é uma tendência evolutiva, per si; no fim de contas, a religião em si não é uma vantagem adaptativa. Pelo contrário, trata-se dum subproduto do viés animista, ou mecanismo de detecção de agência, a tendência para a paranóia, que é uma vantagem adaptativa, porque pode salvar a vida do indivíduo. Os seres humanos não evoluíram para ser religiosos; evoluíram para ser paranóicos. E os seres humanos são religiosos porque são paranóicos.

Alguns leitores poderão reconhecer este argumento como uma variante da «aposta de Pascal». O filósofo francês do século XVII Blaise Pascal (1623-1662) argumentou que, dado que não se pode saber com certeza se Deus existe, não deixa de ser racional acreditar em Deus. Se alguém não acreditar em Deus quando Ele realmente existe (erro de falso negativo), passará a eternidade no Inferno, ao passo que, se se acreditar em Deus quando na verdade Ele não existe (erro de falso positivo), só se desperdiça uma quantidade mínima de tempo e de esforço em serviços religiosos. O custo de cometer o erro de falso negativo é muito maior do que o custo de cometer o erro de falso positivo. Por isso, deve-se racionalmente acreditar em Deus.

No entanto, Pascal não consegue explicar por que os homens sempre se atiram às mulheres, enquanto Haselton e Nettle conseguem. A sugestão intrigante aqui é que a razão por que acreditamos em Deus e nas forças sobrenaturais pode ser a mesma por que os homens sobrestimam o interesse sexual das mulheres em si e fazer avanços indesejáveis ​​a toda a hora. Tanto as crenças religiosas como a falta de comunicação entre os sexos podem ser consequência do cérebro humano estar concebido para a gestão eficiente do erro, para minimizar os custos totais dos erros (em vez do seu número total). Podemos acreditar em Deus pela mesma razão por que as mulheres têm de continuar a dar estaladas no Beavis e Butt-head, para os manter no seu lugar.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).