Por Satoshi Kanazawa [a]

No meu último artigo [2], expliquei por que os homens bonitos podem dar maus maridos. O mais interessante do estudo de McNulty e colegas é que ele mostra que os níveis absolutos de beleza física do marido e da mulher são menos importantes do que a sua diferença relativa (qual dos dois — marido ou mulher — é mais atraente). De facto, de acordo com os dados do estudo, assim que a diferença relativa é tomada em consideração, os níveis absolutos não fazem qualquer diferença na satisfação conjugal do casal, ou no seu comportamento. A conclusão dos autores é que os casais em que a mulher é mais atraente do que o homem são mais felizes do que os casais em que o homem é mais atraente do que a mulher. Mas porquê?

Como é explicado exaustivamente no capítulo 3 do nosso livro «Why Beautiful People Have More Daughters» [Por que as pessoas bonitas têm mais filhas] [5] («Barbie — Manufactured by Mattel, Designed by Evolution» [Barbie — fabricada pela Mattel, desenhada pela evolução]), o valor, em termos de acasalamento, das mulheres depende principalmente da sua juventude e beleza física, enquanto que o valor, em termos de acasalamento, do homem depende principalmente da sua riqueza e estatuto. Os homens preferem casar com mulheres jovens e bonitas e as mulheres preferem casar com homens ricos e poderosos. É claro que o leitor não precisa dum psicólogo evolutivo iluminado para lho dizer; sua bisavó analfabeta, que nunca foi à escola e nunca saiu da sua pequena vila, já o sabia há cem anos atrás. Mas ela não sabia porquê; precisamos da psicologia evolutiva para descobrir porquê.

Por isso, é bastante natural que um homem (seja ele próprio bonito ou feio) que é casado com uma mulher atraente seja mais feliz do que um homem que é casado com uma mulher feia, porque isso significa que sua mulher bonita tem um valor de acasalamento elevado. Da mesma forma, dado que a atracção física não é o que as mulheres procuram nos seus companheiros de longo prazo (i.e. maridos), embora seja o que elas procuram nos seus companheiros de curto prazo (i.e. amantes), ter um marido bonito não vai necessariamente fazer uma mulher feliz com o marido ou o casamento, a menos que ele seja também rico e poderoso. Claro está, não ajuda à felicidade que o seu belo marido seja um idiota e a traia (como expliquei no meu último artigo [2]).

Embora eu não tenha visto mais nenhum estudo que avalie o efeito do valor de acasalamento relativo dos cônjuges sobre a sua satisfação conjugal, não é difícil propor outras hipóteses. Por exemplo, seguindo a mesma lógica, casais em que o homem ganha mais dinheiro ou tem mais estudos do que a mulher devem estar mais satisfeitos com o casamento do que casais em que a mulher ganha mais dinheiro ou tem mais estudos do que o homem. Casais em que o homem é mais alto do que a mulher devem ser mais felizes do que casais em que a mulher é mais alta do que o homem (embora, de acordo com uma estimativa, 99,86% dos casais pertenção ao primeiro tipo).

Da mesma forma, como todas as sociedades de primatas (incluindo todas as sociedades humanas) são gerontocráticas (o que significa que os machos mais velhos costumam ter mais poder e recursos do que os mais jovens), ceteris paribus, os homens mais velhos têm mais valor de acasalamento do que os homens mais jovens e, por consequência, as mulheres preferem acasalar com homens mais velhos do que com homens mais jovens. Assim, eu poderia prever que os casais em que o homem é mais velho do que a mulher (que, naturalmente, são a maioria dos casais em todas as sociedades humanas, por isso mesmo) são mais felizes do que (os poucos) casais em que a mulher é mais velha do que o homem. Além disso, quanto maior a diferença de idade entre o homem e a mulher, mais satisfeito o casal deve estar, não só porque isso significa que o homem é mais velho e tem um estatuto mais elevado, mas também porque isso significa que a mulher é mais jovem.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).