Por Gustavo Martins-Coelho

O vírus Ébola chegou aos Estados Unidos da América, gerando o pânico em todo o país. Em África, o vírus matou 70% das pessoas afectadas, ou seja, cerca de 2300 pessoas [1]. É muita gente em apenas nove meses, convenhamos; e, ainda por cima, não há vacina nem tratamento específico para a doença. Com a frequência de viagens turísticas e de trabalho entre a Europa e os EUA, é uma questão de tempo até o vírus chegar a este nosso cantinho à beira-mar plantado. Ou será que não? Na verdade, o pânico dos Americanos é infundado — daí resultando que os Portugueses têm ainda menos motivos para estar preocupados.

Em primeiro lugar, importa dizer que o vírus Ébola é transmitido em circunstâncias concretas, dificilmente replicáveis nos Estados Unidos, ou em Portugal: é necessário que haja contacto directo com o sangue ou outros fluidos corporais (como saliva, urina e vómito) dos doentes infectadas, ou com fluídos provenientes de cadáveres que tenham morrido da doença. Não é, portanto, um risco que a população em geral corra no seu dia-a-dia, se pensarmos bem (e é por isso que os profissionais de saúde e os agentes funerários são grupos de risco). Também pode ser transmitido por contacto sexual desprotegido com doentes, até três meses depois destes terem recuperado da doença. Mas, mais uma vez, não é um cenário muito provável — quer porque a maioria dos doentes morre, quer porque basta os sobreviventes tomarem precauções, nomeadamente o uso do preservativo (que também ajuda a prevenir outras doenças bem mais contagiosas, como a SIDA), para impedir a transmissão. O sangue e outros fluidos corporais de animais selvagens infectados pelo vírus, mortos ou vivos, também podem provocar a doença; mas estamos a falar de animais que não existem na natureza em Portugal: macacos, antílopes e uma espécie concreta de morcegos africanos. Portanto, neste campo, também estamos seguros. Como o vírus Ébola não é transmitido pelo ar, como acontece com o vírus da gripe ou com o do sarampo, isso dificulta ainda mais o contágio.

Além disso, os doentes só são contagiosos depois de desenvolverem sintomas, de modo que, no caso do doente americano, que esteve em contacto com outras pessoas — e poderá, eventualmente, tê-las contagiado —, basta garantir que estas são isoladas antes de desenvolverem sintomas, para quebrar a cadeia de transmissão do vírus e assim garantir que não ocorre um surto de Ébola nos EUA. Qualquer país com um bom sistema de saúde pública — como é o caso, também, de Portugal —, está em condições de quebrar a cadeia de transmissão do vírus com igual facilidade.

De qualquer forma, como mais vale prevenir do que remediar, ficam aqui alguns conselhos, da Direcção-Geral da Saúde. O Ébola é eliminado pela utilização de sabão ou de lixívia, pela acção da luz solar e por temperaturas elevadas. Basta lavar a roupa na máquina para destruir o vírus. É também uma boa ideia não viajar para os países afectados pelo surto: Guiné-Conacri, Libéria, Serra Leoa, Nigéria e República Democrática do Congo. Mas, se tiver mesmo de lá ir, então evite o contacto directo com sangue ou fluidos corporais de doentes ou de cadáveres e com objectos que possam estar contaminados; evite o contacto com animais selvagens, mortos ou vivos, e o consumo de carne desses animais; evite relações sexuais desprotegidas; evite cavernas, abrigos isolados, minas e todos os locais que possam ser habitados por morcegos; e lave as mãos regularmente. No regresso, se tiver febre, fadiga, diarreia, vómitos, hemorragias, ou dores de cabeça fortes, contacte a Linha Saúde através do 808 24 24 24, e mencione a viagem recente e os sintomas que apresenta. Caso os sintomas surjam ainda durante a viagem de regresso, deverá informar a tripulação imediatamente.