Por Gustavo Martins-Coelho

Houve um período na história da humanidade, em que a política ia no sentido de aumentar o peso médio da população, com o objectivo de aumentar a produtividade dos trabalhadores.

— Gordura é formosura — dizia-se, enquanto se promovia a adição de açúcar e gordura ao regime alimentar.

Longe vão esses tempos, todavia! O ano 2000 não trouxe o bug do milénio [1], como se temia, mas trouxe um dado estatístico muito importante: pela primeira vez na história da humanidade, viviam neste nosso belo planeta mais seres humanos com excesso de peso do que com peso inferior ao normal [2].

A obesidade, definida como um índice de massa corporal superior a 30 [3, a], tornou-se uma verdadeira epidemia. Um estudo muito interessante revelou que o risco de vir a ser obeso aumenta, à medida que as pessoas que nos rodeiam se tornam obesas — à semelhança do que acontece com as doenças infecciosas. Só que a obesidade não se transmite por micróbios, transmite-se «socialmente» [2]. Um outro estudo demonstrou que os pais nunca tiveram filhos tão gordos — e nunca os acharam tão magrinhos! Porque o seu referencial são os filhos com excesso de peso dos amigos… Um terceiro estudo [4] foi mais longe e descobriu que viver ou trabalhar perto de restaurantes de comida rápida (pizas, hambúrgueres, batatas fritas, etc.) está associado a um maior risco de ser obeso. Pior: mesmo passar perto desse tipo de estabelecimentos a caminho de casa ou do trabalho faz aumentar o risco!

Ora, uma das frases mais comuns, que se ouvem por aí, é:

— A mim, até o ar engorda! — implicando que a causa de todos os males do peso e da linha são os genes.

Não vou afirmar neste espaço — até porque seria mentira — que todos somos iguais na forma como digerimos e absorvemos os alimentos e como metabolizamos os seus nutrientes [5]. Uns há que comem pouco e esse pouco basta para engordarem; e outros são ao contrário: por mais que comam, não os vemos ganhar peso. É verdade. Mas, em última instância, o balanço entre engordar e emagrecer resulta da diferença entre a quantidade de calorias ingeridas e gastas: se comemos mais do que gastamos, engordamos; se comemos menos do que gastamos, emagrecemos.

E a verdade é que comemos demais. Mundialmente, estamos a produzir, hoje em dia, cerca de 2700 kcal per capita [6], acima das necessidades nutricionais individuais [7]. Este dado tem duas implicações. A primeira é que é inaceitável que, num mundo que produz mais alimentos do que aqueles de que necessitamos, continue a haver fome. A segunda é que este excesso de produção contribui, só por si, para a obesidade, pelo estímulo acrescido ao consumo. A disponibilidade acrescida de alimentos induz o aumento do consumo — e, consequentemente, o aumento de peso.

Por outro lado, estamos mais ricos. Talvez não em Portugal, onde a política é a do empobrecimento [8], como forma de nos tornarmos mais felizes, mas, globalmente, há maior capacidade económica do que há quarenta anos, condicionando um aumento concomitante do consumo alimentar [9].

Além de comermos mais e demais, comemos pior. Os alimentos processados e densamente energéticos são mais baratos. Ainda por cima, parece que sabem melhor!…

Então, o que podemos fazer para mudar o estado de coisas? Porque a crónica já vai longa, deixo a resposta para a semana.


Nota:

a: A definição de obesidade através do índice de massa corporal é incompleta, por dois motivos: o peso não é um indicador óptimo de adiposidade; e os pontos de corte não reflectem a natureza contínua da associação entre obesidade e risco de doença.