Por Gustavo Martins-Coelho

Terminei a crónica da semana passada [1], prometendo responder à pergunta: «o que podemos fazer para mudar o estado de coisas?» Por «estado de coisas», entenda-se — tentando resumir numa frase o que expliquei na semana passada — o peso das opções individuais e do ambiente em que estamos inseridos na obesidade, por contraponto aos muito acusados — mas não tão culpados quanto isso — genes.

Então, vamos lá ver algumas ideias sobre o que podemos fazer para resolver o problema do excesso de peso.

Começo pelos alimentos processados, que foi a última coisa de que falei na semana passada. Deixem-me dizer que concordo com o senhor Bastonário da Ordem dos Médicos, quando ele defende a ideia de penalizar em sede fiscal os alimentos nutricionalmente desequilibrados [2]. A razão é simples: por um lado, se os alimentos menos saudáveis são mais baratos, há que encarecê-los; e a forma mais fácil é aplicar-lhes impostos mais pesados — como, de resto, se faz com o tabaco, que rende 1.500 milhões de euros, por ano, ao Estado. Além disso, por outro lado, dizer que um dado alimento é menos saudável é, no fundo, dizer que esse alimento predispõe ao aparecimento duma doença — seja a obesidade, seja o cancro, seja outra doença qualquer. Então, se esse alimento tem o potencial de aumentar o risco de adoecer — e se o tratamento dessa doença vai custar dinheiro a todos os contribuintes (lembram-se de eu ter explicado, há uns tempos, que o Serviço Nacional de Saúde é um seguro de saúde, financiado pelos impostos de todos? [3]) — parece ser bastante justo que, pelo menos, uma parte do financiamento desse tratamento provenha do imposto pago pelos consumidores do produto que faz perigar a sua saúde.

Mas há mais coisas que podemos fazer. Chamo a atenção, por exemplo, para a importância da Educação Física nas escolas. É muito mais eficaz, do ponto de vista do controlo do peso, aumentar a actividade física do que reduzir o consumo alimentar; e de pequenino é que se torce o pepino. Se incutirmos hábitos saudáveis, quer na alimentação, quer na actividade física, às nossas crianças, esses hábitos perdurarão ao longo da vida. A Educação Física não pode continuar a ser olhada, pelos alunos e mesmo pelos professores, como uma disciplina «para relaxar das aulas».

Uma outra questão a abordar é a questão da igualdade — que resulta de políticas económicas, educativas e sociais. Socorro-me dum estudo americano recente, para explicar este ponto [4]. Esse estudo chegou à conclusão de que os Americanos, globalmente, estão a comer melhor do que há doze anos, o que parece ser uma boa notícia. Mas, concomitantemente, o estudo concluiu que os Americanos ainda comem mal, pelo que há ainda muito trabalho a fazer neste campo; e, o que é pior, o mesmo estudo descobriu que o fosso entre os ricos e os pobres se agravou. Na verdade, quem melhorou o seu padrão alimentar nos últimos doze anos foram apenas os ricos e mais instruídos: as pessoas de baixo estatuto sócio-económico, a bem dizer, comem hoje tão mal como comiam há doze anos. Ora, qualquer pessoa de bem entende que isto não pode ser, mas continuamos com falta de estratégias para resolver este problema, que é tanto de saúde como social!

Termino, hoje, chamando a atenção para a necessidade de mudar o paradigma vigente: não são só os genes, ou os maus hábitos individuais, que causam a obesidade: o ambiente pode ser promotor da obesidade — e é, como vimos. É, pois, necessário identificar o papel que factores, aparentemente tão desligados da saúde, como a estrutura urbana, a poluição industrial e a conservação do meio ambiente, a rede de transporte colectivo, etc. podem desempenhar no desenvolvimento da obesidade.

Concluindo, do que estamos a falar aqui é da importância de pormos de facto em prática o lema: «a saúde em todas as políticas» [5], que foi introduzido pela presidência finlandesa da União Europeia em 2006 e plasmado nos tratados que regem a União, como já tive oportunidade de explicar detalhadamente há alguns meses [6], neste mesmo espaço [7]. A obesidade não se combate com comprimidos ou dietas milagrosas, mas com responsabilização individual — pelas opções que se fazem, em termos alimentares e de actividade física — e responsabilização colectiva — por construir uma sociedade promotora dum estilo de vida saudável.