Por Gustavo Martins-Coelho

Bem sei que tinha anunciado, na semana passada [1], que a crónica de hoje incidiria sobre a prevenção da doença do legionário; e eu até preparei a crónica e tudo, mas, a caminho do estúdio da Rádio Voz da Ria [2], deparei-me com uma situação, que não resisto a comentar. Mas, antes, duas notas prévias, com o objectivo de contextualizar.

A primeira: em Portugal, pouca é a importância dada, no dia-a-dia, à toponímia, preferindo o povo, quando precisa de identificar pontos de referência geográficos, referir-se, por exemplo, à «rua que vai do centro até à escola secundária antiga». No Norte da Europa, por exemplo, os nomes das ruas e os números das portas são sagrados — o que não só ajuda o GPS a encontrar-se, mas também, acima de tudo, facilita bastante, na hora de situar as coisas. Em boa verdade, diga-se, a culpa da toponímia ser tão desprezada pelo povo é muito de quem dá os nomes às ruas, porque não o faz com critério. Por exemplo, em Estarreja, a «rua que vai do centro até à escola secundária antiga» chama-se, na sua primeira metade, Dr. Alberto Vidal e, na continuação, Dr. Guilherme Souto. Dois nomes para identificar aquilo que, na prática, são duas metades da mesma rua, que vai «do centro até à escola secundária antiga». Assim, torna-se complicado conhecer e memorizar tanto nome para a mesma coisa!

A segunda nota prévia: eu venho habitualmente a pé do centro de saúde até aos estúdios da Rádio Voz da Ria [2], percorrendo em toda a sua extensão, precisamente, a Rua Dr. Guilherme Souto e a Rua Dr. Alberto Vidal. São treze minutos, a pé, que me permitem aproveitar para pôr em prática as recomendações [3] da Organização Mundial da Saúde [4], a respeito de actividade física no dia-a-dia, que já referi neste espaço [5]. Aliás, na altura em que essa crónica foi difundida, uma crítica que recebi foi que é muito fácil dizer que é preciso aumentar a actividade física, mas que nem sempre é possível dispensar meia hora do dia para o desporto, porque há o trabalho, a casa para cuidar, os filhos, etc. Eu também não dispenso meia hora do dia para fazer exercício físico, nem é isso que a OMS preconiza; mas, da última vez que vim de carro do centro de saúde para a rádio, entre tirar o carro do parque do estacionamento, parar nos semáforos e procurar um lugar para estacionar perto dos estúdios, gastei doze minutos. Por mais um minuto, venho a pé, poupo combustível e promovo a minha saúde; e ainda ganho a oportunidade de observar estes momentos, que me dão ensejo de comentar ao microfone da rádio.

Vinha eu, então, pela Rua Dr. Guilherme Souto e, à minha frente, um senhor numa cadeira de rodas eléctrica. Eu vinha pelo passeio; ele vinha pela faixa de rodagem. O motivo é simples: o passeio da Rua Dr. Guilherme Souto não dispõe de largura suficiente para que uma cadeira de rodas, ou um carrinho de bebé, nele possam circular. Exemplos como este repetem-se em catadupa, pelo País fora, apesar da Lei das Acessibilidades [6], que há quinze anos obriga a que os passeios tenham, no mínimo 1,5 m de largura [7]: o blogue «A nossa terrinha» [8] estudou a questão no centro de Oeiras e concluiu que, dos 31 arruamentos analisados, apenas três continham, em toda a sua extensão, passeios, com a largura mínima legalmente exigida [9] — e é porque se tratava de ruas pedonais!!! Nos restantes 28 arruamentos, apenas doze dos 109 troços de passeio neles existentes formavam um corredor pedonal contínuo com pelo menos 1,2 metros de largura livre de obstáculos; e, desses doze troços, só quatro é que não tinham carros estacionados em cima!

Então, por que falo disto num «Consultório…» [10] que aborda «perspectivas sobre saúde»? Porque este é um bom exemplo do que é a «saúde em todas as políticas» [11], de que também já falei aqui [12]. «Saúde em todas as políticas» é não atirar os cidadãos mais vulneráveis — as crianças em carrinhos de bebé e as pessoas que se deslocam em cadeiras de rodas — para a faixa de rodagem, aumentando o risco de serem atropelados por um automobilista, que não conta com a sua presença nesse espaço.