Por Gustavo Martins-Coelho

Hoje, sim, vou concluir o tópico da doença do legionário [1], abordando a questão da prevenção. Para prevenir a ocorrência da doença, é preciso saber, em primeiro lugar, como é que ela se transmite. A Legionella vive e reproduz-se na água quente (entre 25 ºC e 55 ºC) e transmite-se através das vias respiratórias, ou seja, inalando bactérias que se encontram em suspensão na humidade do ar.

É fácil concluir, então, que todas as estruturas que possuam água à temperatura adequada e libertem vapor de água para o ar têm o potencial de causar um surto de doença do legionário, se não forem adequadamente mantidas. Estamos a falar, por exemplo, dos chuveiros: juntamente com a água quente, sai também vapor de água, que é respirado durante o banho. O mesmo vale para o jacuzzi e outros banhos do mesmo cariz: além da temperatura, a água estagnada desses sistema potencia a multiplicação das bactérias, que depois penetram nos pulmões através do vapor de água, que também é libertado durante o seu uso. Estamos a falar, também, dos sistemas que libertam pequenas gotículas de água, seja para arrefecimento, seja, por exemplo, nos supermercados, para manter a fruta e os vegetais hidratados. No entanto, estes sistemas só podem transmitir a Legionella, se as gotículas de água que libertam foram inaladas; os alimentos sobre os quais estas gotículas se depositam podem ser comidos sem medo, pois a Legionella é destruída pelo aparelho digestivo. Outra possibilidade são os bebedouros, devido ao facto de terem água estagnada no seu depósito e, com o tempo (se não forem usados frequentemente) as concentrações de produtos químicos usados no seu tratamento baixarem para níveis ineficazes. No entanto, os bebedouros só se tornam perigosos se uma pessoa tossir ou se engasgar ao beber, pelo risco da água ir parar aos pulmões (relembro que apenas a água inalada — e não a ingerida — tem o potencial de provocar doença do legionário). As fontes decorativas também libertam humidade no ar, a qual até pode viajar alguma distância, dependendo da altura do jacto, infectando mesmo pessoas que não passem junto à fonte. As próprias torneiras de casa podem ser perigosas, se a água sair com demasiada força e, ao embater no lavatório, libertar gotículas para o ar. Mas, diz a estatística, as torres de arrefecimento, como a tão falada da Adubos de Portugal [2], são a principal fonte de risco. Estas torres fazem o ar atravessar um sistema de água, para o arrefecer, e, nesse processo, fazem com que moléculas de água humidifiquem o ar e levem com elas eventuais bactérias que se encontrem nessa água.

Agora que já estamos familiarizados com as fontes de risco, é mais fácil perceber o que podemos fazer para prevenir a doença do legionário. Claramente, não é preciso deixar de tomar banho, nem é preciso passar a ter medo de abrir a torneira ou de lavar a loiça; mas é preciso ajustar a temperatura da caldeira lá em casa para, pelo menos, 60 ºC, para garantir que a Legionella não se multiplica. Outros equipamentos lá em casa que tenham depósitos de água devem ser limpos e a sua manutenção deve ser feita periodicamente, por técnicos habilitados para o efeito. Isto inclui as piscinas domésticas, que também devem ser alvo de manutenção periódica e ter água tratada com cloro. É preciso ter cuidado com as mangueiras, no jardim, que ficam ao sol, e esvaziá-las, depois de usar, para que não permaneça água no seu interior, onde a Legionella possa desenvolver-se. Também não é preciso ter medo das fontes decorativas, nos jardins domésticos: mesmo que haja algum crescimento de Legionella, a concentração de bactérias não atinge valores capazes de provocar a doença do legionário.