Por Gustavo Martins-Coelho

Hoje, estou constipado. A constipação é uma inflamação da nasofaringe, que é a porção superior da faringe. As restantes porções deste órgão, que é uma espécie de canal, que liga o nariz [1] e a boca [2] à laringe e ao esófago [3], são a orofaringe e a hipofaringe. Pelos nomes, percebe-se que a nasofaringe fica atrás das fossas nasais, a orofaringe atrás da cavidade bucal e a hipofaringe por baixo das anteriores. Assim sendo, a faringe faz simultaneamente parte do aparelho digestivo [2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10] e do aparelho respiratório [1, 11, 12].

Mas dizia eu que a constipação é uma inflamação da nasofaringe. Esta inflamação pode ter mais do que uma causa, mas a mais frequente é a infecção por vírus — e isto é muito importante: como qualquer outra infecção, a constipação só se transmite se a pessoa que fica doente tiver contacto com o vírus. Por outras palavras, ao contrário da crença popular, não é o frio que causa a constipação — ninguém fica constipado por apanhar frio, chuva, ou por ser Inverno. Não quer dizer que não devamos agasalhar-nos, com a chegada do tempo frio, mas as razões são outras (e talvez mereçam uma crónica futura). De qualquer forma, já antevejo os cépticos dizerem:

— Se não é o frio, ou a chuva, que provoca a constipação, então, por que é que só fico constipado no Inverno?

Bom, se pensar com atenção, tenho a certeza de que vai acabar por descobrir uma vez em que ficou constipado no Verão, o que deita por terra a sua teoria. Mas, apesar disso, até lhe dou uma certa razão: as constipações são mais frequentes no Inverno; mas não porque sejam provocadas pelo clima invernoso. A questão é antes que, com o frio, se passa mais tempo em locais fechados, o que facilita a proximidade e o contacto entre pessoas infectadas e não infectadas e a transmissão do vírus daquelas para estas. A humidade, nos meses de Inverno, ajuda à sobrevivência do vírus; e o tempo também faz secar a mucosa nasal, retirando-lhe, dessa forma, um dos seus mecanismos de defesa natural contra a infecção.

Uma outra doença frequente nesta altura do ano é a gripe. Creio que é importante saber distinguir uma constipação duma gripe. Os sintomas são, habitualmente, diferentes: a presença de febre, de dor de cabeça, de dores no corpo, de fraqueza e de exaustão apontam para gripe, pois são raríssimas na constipação; já o nariz entupido, os espirros e a garganta inflamada quase nunca surgem na gripe, mas são frequentes na constipação. O tratamento é também diferente: no caso da gripe, poderá estar indicado o uso de antivíricos, pelo que deve consultar o seu médico de família (se for à urgência, será provavelmente classificado com uma pulseira azul — verde, no máximo —, significando que está lá desnecessariamente [13]); no caso da constipação, o tratamento destina-se apenas a aliviar os sintomas e pode ser tão simples como inalar ar quente húmido (tendo cuidado com a Legionella, claro está [14]), ou lavar com água com sal. Para quem for adepto de soluções drásticas, um anti-inflamatório ou um anti-histamínico são uma opção. Eu, pessoalmente, não costumo fazê-lo.

De qualquer forma, seja gripe ou constipação, pela sua alma, não tome antibióticos, nem peça ao seu médico que lhos receite: não têm qualquer utilidade, porque é dum vírus que estamos a falar; e os antibióticos só são eficazes contra bactérias. O único resultado prático de tentar tratar uma constipação ou uma gripe com antibióticos é promover o aparecimento de bactérias resistentes aos ditos, tornando-os inúteis no futuro.