Por Gustavo Martins-Coelho

O Inverno entrou às 23h03 de Domingo, 21 de Dezembro, marcando a noite mais longa e o dia mais curto do ano. A partir de hoje, a duração dos dias recomeça, lentamente, a crescer, até voltarmos a ter o dia mais longo (e a noite mais curta), por alturas do solstício de Verão, em Junho.

Esta variação anual, de que os primitivos povos humanos já tinham conhecimento, resulta do desvio do eixo da Terra e da sua rotação em torno do Sol, isto é, como a Terra gira sobre si mesma sobre um eixo inclinado em 23,5°, relativamente ao plano da sua órbita, o hemisfério Norte e o hemisfério Sul alternam na posição de receber os raios solares mais directamente. A sucessão das estações do ano resulta deste facto — e não, como, por vezes, se ouve dizer, da variação da distância da Terra ao Sol, ao longo da sua órbita elíptica.

No solstício de Inverno (que é o solstício de Verão no Brasil e em todo o hemisfério Sul), o hemisfério Norte encontra-se na sua posição inclinada mais afastada do Sol. Os raios solares incidem, ao meio dia, verticalmente sobre o trópico de Capricórnio; todas as regiões a Norte, incluindo Portugal, não recebem mais do que radiação solar inclinada (menos capaz de aquecer) e o pólo Norte não recebe raios solares, de todo.

Os dias curtos trazem uma série de alterações na natureza (incluindo nos seres humanos, que, é preciso não esquecer, fazem parte do mundo animal). Dado que o Sol é a fonte última de luz, de calor e de energia da Terra, toda a existência dos seres vivos é influenciada pela sua duração. As plantas de folha caduca há muito que começaram a despir-se; mesmo as de folhagem perene reduzem os seus processos biológicos. As aves migratórias também já partiram. Outros animais preferem hibernar; e muitos passaram o Verão a armazenar alimento nas tocas, para agora poderem sobreviver. Com o frio do Inverno, alguns animais mudam, inclusivamente, de aspecto, para resistirem às condições agrestes. Entre os seres humanos, está descrita, por exemplo, uma alteração de humor relacionada com o tempo: a seasonal affective disorder [1], ou, em bom Português, depressão sazonal.

Os sintomas incluem dificuldade em acordar, de manhã (que, claro, não deve ser confundida com a boa e velha preguiça); náuseas; tendência a dormir e a comer demasiado, particularmente hidratos de carbono [2], levando a aumento do peso [3]; diminuição da energia; dificuldade de concentração e em concluir as tarefas; afastamento dos amigos, da família e das actividades sociais; e diminuição do interesse sexual.

Alguns cientistas alegam que a depressão sazonal é uma reminiscência da hibernação, que terá permanecido impressa nos nossos genes, devido ao facto de haver menos comida durante o Inverno e, portanto, os hominídeos menos activos durante esse período gastariam menos energia e, logo, teriam maior facilidade em sobreviver. Ao fim e ao cabo, tendo em conta o comportamento dos restantes animais, que descrevi há momentos, e considerando que também somos animais, esta hipótese até faz bastante sentido!

Mas o Inverno não interfere só com o estado de humor: o frio pode ter consequências graves na saúde! Voltarei ao tema, em breve.