Por Gustavo Martins-Coelho

Antes que o ano acabe [a], tenho de falar num aniversário que se assinalou em 2014: os 25 anos da identificação do vírus da hepatite C. O ano de 1989 ficou marcado por grandes momentos históricos, nomeadamente o princípio do fim da União Soviética: a retirada do Afeganistão; a revolução de veludo, na Checoslováquia [2]; o fim do ditador Ceauşescu, na Roménia [3]; e, claro, a memorável queda do Muro de Berlim [4]. Para além destes momentos, 1989 observou também outros momentos que, podendo ter passado mais ou menos despercebidos, ajudaram a delinear o mundo em que vivemos hoje em dia, como sejam a invenção da world wide web [5], o célebre protesto da Praça da Paz Celestial (Tian’anmen) [6] e a sentença de morte a Salman Rushdie [7], por causa dos seus «Versículos satânicos» [8]. Mas, como comecei por dizer, na Medicina, 1989 foi o ano em que o progresso científico culminou na identificação do vírus da hepatite C.

Nos últimos 25 anos, apesar dos avanços no rastreio, no diagnóstico e no tratamento, ainda não existe uma vacina; e estima-se que 150 milhões de pessoas permaneçam infectadas, no mundo inteiro — das quais cerca de quinhentas mil morrem, por ano, em consequência de doenças do fígado devidas à hepatite C, tais como o cancro do fígado.

Julga-se que o vírus da hepatite C terá surgido, na sua forma actual, há cerca de quatrocentos anos — embora esta hipótese seja alvo de controvérsia, visto que, devido à sua transmissão através do sangue, seria pouco provável que um tão curto período de tempo fosse suficiente para o vírus se espalhar por todo o mundo.

Embora o vírus tenha sido detectado em animais domésticos, tais como cães e cavalos, bem como em morcegos e roedores, a verdade é que a hepatite C é uma doença dos humanos, ao contrário, por exemplo, da gripe, cujo vírus se dá bem noutras espécies, como é sabido (toda a gente ouviu decerto falar da gripe das aves, ou dos suínos). Pensa-se também que terá chegado aos humanos através dalgum primata, possivelmente os chimpanzés.

A hepatite C demorou — digamos — uma década e meia a ser descoberta. Passo a explicar: nos anos 1970, havia testes laboratoriais capazes de identificar a hepatite A e a hepatite B no sangue, mas havia doentes que desenvolviam hepatite na sequência duma transfusão sanguínea, cujos testes tinham vindo negativos, tanto para a hepatite A, como para a B. À hepatite que estes doentes desenvolviam, chamou-se hepatite não-A-não-B; hoje em dia, acredita-se que 90 % desses casos de hepatite correspondiam, na realidade, a hepatite C. Seguiram-se anos de trabalho em laboratório, envolvendo muitos cientistas e várias instituições, mas, quando, finalmente, se identificou o vírus da hepatite C, tornou-se possível testar o sangue doado para transfusões, para verificar a sua presença, o que tornou as transfusões mais seguras, prevenindo, só no primeiro ano da sua utilização, cerca de quarenta mil contágios! Valeu a pena o esforço, portanto.

Entretanto, mesmo sem se saber o que era a hepatite não-A-não-B, já se trabalhava na busca duma cura. Em 1986 — três anos antes da descoberta do vírus, note-se —, era publicado o primeiro estudo que falava do papel do interferão ɑ no tratamento — interferão ɑ esse que foi introduzido no mercado em 1991 e perdurou durante anos como tratamento de primeira linha. Em 1998, foi adicionada uma outra substância ao tratamento padrão, a ribavirina, e, em 2001, surgiu uma forma «reforçada» de interferão ɑ, que, juntamente com a ribavirina, foi o melhor que conseguimos oferecer, durante uma década. Contudo, desde 2011, foram anunciados quatro novos anti-víricos, com acção directa no vírus da hepatite C, que prometem revolucionar — e encarecer — o tratamento da doença.

E é neste ponto que estamos hoje, 25 anos depois: se for realizado um rastreio universal e todos os doentes receberem tratamento, em pouco mais de vinte anos é possível incluir a hepatite C na lista das doenças raras, ou seja, doenças que afectam menos de uma em cada 2.000 pessoas [9]. Era uma boa resolução de Ano Novo, não era?


Nota:

a: Esta crónica foi originalmente difundida na Rádio Voz da Ria [1] no dia 30 de Dezembro de 2014 (n. da E.).