Por Gustavo Martins-Coelho

Começo o ano a falar de tabaco.

A Organização Mundial da Saúde estima que, ao longo do século XX, o consumo de tabaco tenha sido responsável por cem milhões de mortes, a nível mundial, e que este número possa ascender a mil milhões no século XXI [1]. O tabaco é um factor de risco conhecido para seis das oito principais causas de morte, a nível mundial: doenças do coração, acidentes vasculares cerebrais, pneumonias, doença pulmonar obstrutiva crónica, tuberculose e tumores malignos do aparelho respiratório. O tabaco é ainda factor de risco para outras doenças menos frequentes, nomeadamente neoplasias malignas da cavidade oral e da orofaringe, do esófago, do estômago, do fígado e outras, bem como outras doenças cardiovasculares, além das que mencionei anteriormente [1].

Em Portugal, a Organização Mundial da Saúde estima que 10 % de todas as mortes em pessoas com mais de trinta anos, em 2004, tenham sido causadas pelo tabaco — ou seja, em 2004, morreram 155 pessoas por 100.000 habitantes por causa do tabaco [2]. Se falarmos só da mortalidade por tumores malignos da traqueia, dos brônquios e do pulmão, então 77 % da mesma é causada pelo tabaco [2]. Nos homens com mais de trinta anos, o tabaco foi responsável por 17 % de todos os óbitos, em 2004, correspondendo a 88 % das mortes devidas a tumores malignos da traqueia, dos brônquios e do pulmão. Nas mulheres com mais de trinta anos, o tabaco foi responsável por 3 % dos óbitos, também em 2004, correspondendo a 30 % das mortes devidas a tumores malignos da traqueia, dos brônquios e do pulmão [2].

No entanto, há boas notícias: entre 2007 e 2011, a mortalidade por doenças associadas ao consumo do tabaco registou um decréscimo. Ainda assim, o sexo masculino continua a apresentar taxas mais elevadas do que o sexo feminino; e este decréscimo fez-se, sobretudo, à custa das doenças cardiovasculares, enquanto a mortalidade devida às doenças respiratórias e aos tumores malignos da traqueia, dos brônquios e do pulmão se manteve mais ou menos inalterada [3].

Em termos de custo, o tratamento das doenças relacionadas com o consumo do tabaco terá custado ao Serviço Nacional de Saúde, em 2007, quase quinhentos milhões de euros, representando aproximadamente 5,4 % da despesa total do Serviço Nacional de Saúde. Por outro lado, as receitas fiscais sobre o tabaco ascenderam, nesse mesmo ano, a 1.165,4 milhões de euros [4].

Não obstante, Portugal é dos países da União Europeia com menos fumadores. Em 2012, 23 % dos Portugueses afirmava-se fumador, 15 % ex-fumador e 62 % não fumador [5], sendo esta a segunda mais baixa prevalência de fumadores entre os países da União Europeia, atrás apenas da Suécia (13 % de fumadores). A maior prevalência de fumadores regista-se entre os 35 e os 44 anos, em ambos os sexos (44,5 % nos homens e 20,9 % nas mulheres) [6]. Os desempregados também fumam mais [3], assim como os açorianos. Aqui pelo Centro, estamos de parabéns, pois temos a mais baixa proporção de fumadores, tanto em termos globais como no sexo masculino, embora, no sexo feminino, a região com menos fumadores seja o Norte [3].

A exposição ambiental ao fumo do tabaco é um problema grave. De acordo com o Inquérito Nacional de Saúde 2005/2006, encontravam-se expostos ao fumo ambiental do tabaco mais de metade dos inquiridos, entre os 10 e os 64 anos [3]. Particularmente, no local de trabalho, 29,0 % dos trabalhadores estava exposta, pelo menos durante um quarto do tempo de trabalho, ao fumo ambiental do tabaco, em 2005. No entanto, em 2010, essa proporção baixou para 7,8 %, provavelmente fruto da lei do tabaco, que, entre outras medidas, proibiu o fumo nos locais de trabalho [3]. Esta é, também, uma boa notícia!