Por Gustavo Martins-Coelho

Está frio!

Já ando a prometer há umas semanas [1, 2] falar sobre os efeitos do frio na saúde, de modo que, como dizem (ou diziam; não sendo bebedor de café, tendo a andar desactualizado nestas coisas), portanto, como dizem os pacotes de açúcar Nicola, hoje é o dia!

Então, comecemos por recordar que, em Junho, dias depois do solstício de Verão, falei da «poesia que se encontra escondida nos lugares mais inesperados» [3], a propósito dos conceitos de onda de calor e vaga de frio. Na altura, expliquei que a água do mar tem um nível médio (a partir do qual é medida a altitude, a propósito) e que tem ondas e vagas, que são definidas — as primeiras como o que sobe acima do nível médio da água — e as segundas como o que desce abaixo desse mesmo nível médio; e fiz a analogia com a temperatura: as ondas de calor são temperaturas mais altas e as vagas de frio são temperaturas mais baixas.

No caso da temperatura, as definições são um pouco mais complexas: uma onda de calor define-se como seis dias consecutivos de temperaturas, pelo menos, 5 °C acima do valor médio de referência para esse período. Por contraponto, uma vaga de frio é o inverso: pelo menos seis dias consecutivos, em que a temperatura máxima diária seja inferior, pelo menos, em 5 °C ao valor normal para a época. As vagas de frio surgem em consequência de massas de ar frio que se deslocam sobre as áreas continentais, normalmente agravadas pela ocorrência de vento moderado ou forte, que ampliam os efeitos do frio. Em Portugal, as vagas de frio associam-se ao anticiclone dos Açores [4], quando está mais próximo da Península Ibérica, ou quando surge um anticiclone [5] junto à Europa do Norte.

Tal como o calor intenso, também o frio extremo constitui uma agressão para o corpo humano. A exposição prolongada ao frio pode ter dois efeitos nefastos, em particular: hipotermia e queimaduras. Os grupos mais vulneráveis ao calor [6] são também os mais vulneráveis ao frio: crianças; idosos; doentes crónicos e a fazer medicações crónicas; pessoas acamadas, ou com doenças psiquiátricas; trabalhadores muito expostos ao frio; e pessoas com casas mal protegidas contra o frio.

Ora, começo, então, pela hipotermia. A hipotermia define-se como a diminuição da temperatura em mais de 2 °C, relativamente à temperatura normal do corpo humano, que, como o Carlos Lima [7, 8] explicou recentemente [9] no seu «Consultório…» [7], ronda os 37 °C, e divide-se em três graus: ligeira (entre 34 °C e 35 °C), moderada (entre 30 °C e 34 °C) e grave (abaixo de 30 °C). Os sinais e sintomas, além da temperatura corporal baixa (que pode ser medida com um termómetro), variam com o grau de hipotermia. A hipotermia leve causa, obviamente, sensação de frio, mas também tremores (que ajudam a elevar a temperatura [9]), letargia e espasmos musculares [10]. A pele [11] fica fria e as mãos e os pés podem ficar arroxeados. Com a hipotermia moderada, os tremores começam a desaparecer e surgem prostração e rigidez muscular, acompanhadas de sonolência, que pode evoluir para alterações na memória e na fala e confusão mental. Finalmente, a hipotermia grave manifesta-se por perda de consciência, dilatação das pupilas e diminuição da frequência cardíaca. A hipotermia grave ou prolongada, sem tratamento, pode causar a morte.

Quanto à queimadura pelo frio, embora pareça um contra-senso (então o frio queima?), existe e é devida à constrição dos vasos sanguíneos das extremidades mais expostas ao frio: nariz, dedos das mãos e dos pés, orelhas, no sentido de manter a temperatura das partes do corpo, sem as quais a vida é impossível — cérebro [12], coração [13], pulmões [14]… Em casos extremos, as superfícies desprotegidas podem chegar a congelar (por congelamento da água [15] existente nas células [16]), causando danos, que podem ser irreversíveis e implicar a amputação.

Para a semana, falaremos das medidas de protecção contra o frio.