Por Hugo Pinto de Abreu

Este é o meu primeiro «Consultório…» [1] após os gravíssimos eventos em França, na passada semana. Parece-me importante dedicar a atenção a este assunto, bem como discutir a questão do extremismo, religioso e não religioso.

É certo que praticamente todos os dias há atentados terroristas, muitos deles bem mais mortíferos do que o ataque ao Charlie Hebdo da passada semana. Todavia, não vejo qualquer incoerência ou estranheza no facto de eu — e, provavelmente, a maioria das pessoas — nos sentirmos particular e desproporcionadamente mais chocados e mais atingidos pelo ataque ao Charlie Hebdo, bem como ao supermercado judaico em Paris. Estranho seria se conseguíssemos sentir dor e pena de forma proporcional: ora, normalmente a dor que sentimos pelo falecimento dum familiar é bem diferente da que sentimos ao ler sobre a morte dum desconhecido num obituário, que muitas vezes não nos causa, aliás, qualquer dor ou comoção. O ser humano é assim: um ser cujas emoções têm graus e que não consegue sentir tudo de forma proporcionada. Aliás, a proporção é bem mais própria da razão do que do sentimento.

Por razões que têm que ver com a minha própria história pessoal, a questão do extremismo e das formas de evitá-lo ou de superá-lo está muito frequentemente no meu pensamento. Não sou psicólogo, tão-pouco sou sociólogo, mas, tendo algum contacto com o fenómeno do extremismo, permito-me partilhar algumas ideias.

Todas as formas de extremismo que conheço são ideológicas, ainda que usem uma capa ou um fundamento religioso. A meu ver, a característica primeira do extremismo — que, aliás, advém desse carácter ideológico e duma certa aspiração utópica, ainda que sob um discurso anti-utópico — é a rejeição radical do status quo, a condenação brutal da sociedade tal como ela está, sendo frequentemente apresentada como decadente, necessitada duma purificação radical, purificação essa que pode justificar mais ou menos qualquer coisa. Este é o extremismo dos que querem restaurar o Califado através do Estado Islâmico; mas é também o extremismo duma parte significativa da extrema-direita e daquilo a que nos Estados Unidos se chama a «direita religiosa», que vê na Rússia de Putin um farol da civilização. Este é o extremismo que matou centenas à bomba em Londres e Madrid; este é o extremismo que destrói clínicas de aborto à bomba.

Mas como se combate o extremismo? Penso que parte importante desse combate, que é, na sua componente mais importante, um combate interior na consciência da cada pessoa, se centra em ajudar à superação individual da construção ideológica, da narrativa, que sustenta o extremismo. Qualquer ataque frontal e em toda a linha está, portanto, normalmente condenado ao fracasso, e provavelmente produz o efeito de reforçar ainda mais o extremismo, que funciona como um circuito fechado. O segredo, a meu ver, está precisamente na abertura doutros canais, de pontes de ligação com a nossa sociedade, com os nossos valores, com o nosso tempo, que consigam abrir o circuito. É quase — é mesmo! — um processo de socialização. Assim, parte importante desse processo assenta, por um lado, na integração sócio-económica, mas também cultural e ética. Em última análise, esta socialização precisa de assegurar um sentido, uma narrativa, uma série de ideais que não impliquem a rejeição em bloco do status quo, mas sim o seu aperfeiçoamento, e que se centrem no desenvolvimento e não na purga. As sociedades europeias falham miseravelmente na construção deste projecto.