Por Jarrett Walker [a]

Este artigo é uma nota de rodapé do meu artigo «Como distinguir um comboio dum autocarro» [2]. Leia-o primeiro.

Eu tomei como ponto de partida os resultados duma sondagem do «Infrastructurist», que reuniu e publicou «36 razões por que os eléctricos são melhores do que os autocarros», e usei essas 36 razões para classificar as diferenças entre ferrovia e rodovia geralmente entendidas pelo público em três categorias:

  • Falsas diferenças: questões como a propulsão e a circulação em via própria, que podem diferenciar uma linha ferroviária particular duma linha de autocarro determinada, mas que não são intrínsecas de cada modo de transporte.
  • Efeitos culturais: as diferenças que resultam da forma como as pessoas pensam sobre a diferença, ou a percebem, que exercem uma influência profunda sobre o número de passageiros, o investimento realizado, etc., mas não podem fazer esquecer que a cultura muda, mas a geometria não.
  • Diferenças intrínsecas: estes poucos itens, apenas seis dos 36, são reais diferenças entre transporte ferroviário e rodoviário.

Vários itens da lista do «Infrastructurist» são duplicados, ou combinações de vários problemas, pelo que os simplifiquei; e acrescentei outros da minha autoria, na produção do artigo principal [2]. Vários leitores questionaram por que não havia uma correspondência exacta entre os itens do meu artigo e os itens originais do «Infrastructuris», de modo que publico esta nota, para mostrar como o meu artigo deriva do original. O texto original do «Infrastructurist» encontra-se sublinhado, seguido, em cada caso, pela minha resposta, em texto simples.

  1. As novas linhas de eléctrico sempre — sempre — captam mais passageiros do que as linhas de autocarros que aquelas substituem. Efeito cultural.
  2. Os autocarros são suscetíveis a cada buraco e irregularidade do pavimento (e em Chicago há muito disso). Os eléctricos deslizam sobre carris de aço, sem juntas, que raramente causam solavancos. Diferença intrínseca na «qualidade da viagem», embora o pavimento possa, obviamente, ser mantido em melhores condições. Pontuação de 25 % para efeito cultural e 75 % para diferença intrínseca.
  3. Os eléctricos não fazem os passageiros sentir-se «de baixo nível». Os autocarros costumam fazer. Efeito cultural.
  4. Os fabricantes de mapas quase sempre incluem as linhas de eléctrico nos seus mapas da cidade e quase nunca colocam qualquer linha de autocarro. O novo investimento segue as linhas do mapa. Efeito cultural.
  5. Os custos iniciais são mais altos para os eléctricos do que para os autocarros, mas isso é mais do que compensado ao longo do tempo pelos menores custos operacionais e de manutenção. No transporte colectivo, recebe-se o que se paga. Diferença intrínseca, embora com muitas ressalvas, e certamente não é uma verdade universal na comparação entre ferrovia e rodovia. Pontuação de 50 % para intrínseca.
  6. Há um inefável efeito de «moda» e «novidade» ligado aos eléctricos. Efeito cultural.
  7. Os eléctricos fazem o passageiro sentir-se mais seguro, no que diz respeito ao crime. Efeito cultural. Se esta diferença de «sentimento» resulta de diferenças de concepção, sem relação com a diferença entre ferrovia e rodovia, tais como uma melhor iluminação nas paragens de eléctrico do que nas de autocarro, então esta é também uma falsa diferença.
  8. Rodas de aço sobre trilhos de aço são inerentemente mais eficientes do que pneus de borracha sobre o pavimento. Os eléctricos conseguem acelerar mais rapidamente do que os autocarros. O primeiro item é intrínseco, embora a diferença não seja grande. O segundo item é principalmente sobre a propulsão, o que é uma falsa diferença. Pontuação de 50 % para intrínseca.
  9. Os veículos ferroviários não cheiram a combustível. A propulsão é uma falsa diferença.
  10. Os veículos ferroviários aceleram e desaceleram suavemente, porque são movidos a electricidade. Os motores de combustão interna com transmissão não podem, simplesmente, acelerar com a mesma suavidade. A propulsão é uma falsa diferença.
  11. O limite de comprimento actual dum autocarro é de vinte metros, mas os veículos ferroviários podem ser mais compridos, uma vez que estão presos nos carris e não andarão por aí a balançar pelas ruas, abalroando carros. Diferença intrínseca — e um dos factores com maior potencial de ser decisivo.
  12. Os eléctricos têm um ar de nostalgia. Efeito cultural.
  13. Os novos eléctricos e o metro ligeiro geralmente trazem uma forma nova de viver a rua, com melhores paragens, paisagismo, novas ruas e melhor pavimento, por exemplo. Ainda por cima, o dinheiro federal paga essas modernizações: por que não hão as cidades de tentar usá-lo! Efeito cultural.
  14. Talvez a diferença mais significativa e mais ignorada entre ferrovia e rodovia seja a permanência. O desenvolvimento segue uma estação de comboio, mas raramente uma paragem de autocarro. Os carris não se levantam e vão embora a qualquer momento. Assim que um sistema ferroviário está em vigor, as empresas e os investidores podem contar com eles ao longo de décadas. Os autocarros vêm e vão. Efeito cultural.
  15. Os eléctricos são leves e, potencialmente, 100 % verdes. Potencialmente, poderiam ser alimentados por 100 % de energia solar ou eólica. Mesmo alimentados com a eletricidade de origem fóssil, ainda são 95 % mais limpos do que os autocarros a gasóleo. [Fonte?] A propulsão é uma falsa diferença.
  16. Os veículos ferroviários param menos. Devido à infra-estrutura necessária para fazer uma paragem, os operadores de transporte colectivo não colocam paragens em cada quarteirão, como fazem com os autocarros (a rede SEPTA, em Filadélfia, é terrível por isto). Em vez disso, as estações ficam a quatrocentos ou oitocentos metros de distância, pelo que qualquer ponto estão a não mais do que duzentos ou quatrocentos metros duma estação. Falsa diferença. Dado que as paragens de autocarro são muito próximas, porque os operadores acham que os autocarros são ou deveriam ser intrinsecamente lentos, este é também um efeito cultural.
  17. As pessoas percorrem distâncias maiores em eléctricos. Num momento, na década de 1930, uma pessoa podia viajar entre Boston e Washington unicamente em eléctricos, com apenas dois intervalos curtos nas rotas. Efeito cultural.
  18. Os autocarros são barulhentos. Eu uso-os todos os dias em Chicago e fico constantemente espantado com o barulho que um motor de combustão de autocarro faz, mesmo nos nossos autocarros de último modelo, [e] irrita o sistema nervoso. Em comparação, os eléctricos são virtualmente silencioso. A propulsão é uma falsa diferença.
  19. Os avanços tecnológicos colocam a actual geração de eléctricos definitivamente longe da do seu avô. Os pisos rebaixados são o padrão, para facilitar a entrada e saída dos passageiros directamente do passeio. Portas largas permitem que os passageiros entrem e saiam rapidamente. Assim, as paragens do eléctrico levam menos tempo do que as dos autocarros. Falsa diferença. Os veículos bons de serviços de autocarros rápidos têm todos esses recursos; alguns até têm portas de ambos os lados. A única diferença que é intrínseca aqui é a existência dalguns limites da estrutura interna, necessários aos poços das rodas, mas, num veículo bem concebido, isso não afecta o tempo de embarque.
  20. Os passageiros sentem-se reconfortados por verem os trilhos estendendo-se na distância, à sua frente, enquanto sempre temem que o autocarro enganar-se no caminho na próxima esquina e desviá-los da rota. Efeito cultural. Um bom mapa da rede frequente [3] e paragens do nível do serviço de autocarros rápidos podem igualar esta vantagem dos eléctricos. Note-se também que esta suposta garantia fornecida pelos trilhos só funciona em cidades que têm apenas uma ou duas linhas de eléctrico. Cidades ricas em eléctricos, tais como Toronto e Melbourne, têm carris em muitas das suas ruas, de modo que existem muitas oportunidades para um eléctrico rebelde para sair do rumo, se se realmente quiser ser paranóico a esse ponto.
  21. Depois de adquiridos (embora a um custo mais elevado), os eléctricos são menos dispendiosos em termos de manutenção, além de durarem mais (alguns eléctricos descartados pelos EUA na década de 40 foram adquiridos pelos jugoslavos e ainda estão em circulação). Diferença intrínseca.
  22. A manutenção dos carris é mais barata do que as estradas que aqueles substituem. Não, se os carris forem colocados na estrada, em vez da substituirem. Pontuação de 50 % para diferença intrínseca.
  23. As pessoas ficam consideravelmente mais animadas com a proposta de prolongamento duma linha ferroviária e esperam por uma revitalização dos bairros adjacentes. Esta é praticamente a definição dum efeito cultural.
  24. Os eléctricos criam ruas mais amigas dos peões, porque os eléctricos, tal como mencionado acima, são mais atractivos para os passageiros do que os autocarros, o que, por sua vez, leva ao aumendo da utilização do transporte colectivo em geral, que por sua vez leva a mais caminhadas — um ciclo virtuoso que cria ruas mais simpáticas. Efeito cultural.
  25. A maioria das cidades e dos países europeus manteve o investimento em transporte colectivo durante as décadas em que os EUA foram desinvestindo. Agora, eu olho para o lado de lá do oceano e vejo dezenas de cidades europeias a estender ou construir novos sistemas de transporte ferroviário, incluindo muitas linhas de eléctrico, e concluo:
    — Eles provavelmente sabem o que estão a fazer; nós deveríamos fazer o mesmo.
    Efeito cultural.
  26. Sabe-se exactamente para onde um eléctrico vai — mas experimente olhar para um mapa das linhas de autocarro. Falsa diferença. Considerando que os mapas da rede de autocarros são incompreensíveis porque o cartógrafo do operador de transporte colectivo aceita a noção de que os autocarros são intrinsecamente confusos, é também um efeito cultural.
  27. Os eléctricos são mais rápidos do que os autocarros ou os troleicarros (com excepção de duas linhas em Filadélfia, mais alguma cidade ainda tem troleicarros?), porque os eléctricos tendem a ter vias dedicadas. Mesmo se não tiverem, se circularem em ruas com várias vias, os condutores tendem a desocupar a sua via, porque é mais difícil conduzir um carro ao longo de carris (as rodas puxam para um lado ou para o outro, à medida que caem no trilho). Os corredores dedicados são uma falsa diferença. O comportamento dos condutores é um efeito cultural.
  28. No autocarros, é-se abanado por cada buraco e balança-se em todas as paragens. Pensei que o serviço rápido seria uma melhoria significativa, mas ainda há um pouco de balanço e o cimento não foi instalado tão bem como os carris de aço. Esta é uma duplicação do segundo item, que eu classifiquei como 25 % falsa diferença e 75 % intrínseca.
  29. Com os autocarros, os operadores são levados, através das fórmulas de financiamento, a capturar todas as bolsas de passageiros, pelo que o resultado final pode ser uma rota muito sinuosa — algo que é menos exequível num sistema ferroviário fixo. Falsa diferença, decorrente dum efeito cultural. Diga ao seu operador de transporte colectivo que não quer rotas sinuosas e ele vai deixar de desenhá-las com prazer.
  30. Os autocarros dão guinadas imprevisíveis dum lado para o outro, à medida que procuram evitar o trânsito e saem da faixa de rodagem para a paragem. Nos eléctricos, as curvas ocorrem sempre no mesmo local, em cada viagem, de modo que mesmo os passageiros em pé podem relaxar mais ou menos, sabendo que o eléctrico não vai fazer movimentos laterais imprevisíveis. Marque esta como 50 % falsa diferença, pois muito pode ser feito para reduzir o movimento lateral dos autocarros (puxar o passeio à faixa de rodagem em vez de fazer o autocarro chegar-se ao passeio nas paragens, por exemplo.) Também estão em desenvolvimento corredores bus com guias, mas é uma tecnologia recente. Pontuação de 50 % para diferença intrínseca.
  31. A maioria dos passageiros de eléctrico não pensa conscientemente sobre as diferenças entre um passeio de autocarro e um passeio de eléctrico. Mas os seus sentidos — o inconsciente da medula espinhal, o plexo plantar, o ouvido interno e o fundo das calças rapidamente medem as diferenças e fornecem uma conclusão impressionista: o passeio de eléctrico é fisiologicamente menos estressante. Esta é uma mistura complexa de questões de propulsão — que são falsas diferenças — e a diferença intrínseca da qualidade de viagem. Pontuação como 50 % intrínseca.
  32. Um motor de combustão interna está constantemente concentrado em martelar até à morte; e os autocarros tendem a vibrar numa espécie de desalinho metalúrgico. Os acabamentos interiores — janelas, varões, revestimentos do pavimento, assentos — tendem a ficar soltos e fazem o interior parecer maltratado e desleixado. Aos doze anos um autocarro é um pedaço de lixo e tem de ser aposentado. Um eléctrico da mesma idade está apenas na adolescência. A propulsão é uma falsa diferença.
  33. As paragens de eléctrico habitualmente recebem mais atenção do que a maioria das linhas de autocarro e o sistema de informação é mais avançado. Em Portland, os abrigos têm mesmo ecrãs VMS que informam os horários dos próximos dois eléctricos a passar. Esta valiosa informação dá às pessoas a opção de esperar, de fazer outra coisa para passar o tempo, ou de ir a pé para o seu destino. Informações ao cliente é uma falsa diferença. Algumas paragens principais em Portland também apresentam o tempo real da passagem do autocarro seguinte.
  34. Uma grande vantagem dos eléctricos é que a infraestrutura serve como dispositivo de orientação e orientação espacial. Os carris alertam os passageiros para a linha e levam-nos à paragem mais próxima. Dado que são uma característica permanente da paisagem urbana, o percurso é previsível e estável (ao contrário das linhas de autocarro). Portanto, ao contrário dum autocarro, um eléctrico informa e ajuda os cidadãos a formular uma imagem da sua cidade, mesmo que as pessoas não o usem. É uma característica do seu domínio público. Por este motivo, as ruas servidas por eléctricos obtêm maior atenção do público. Efeito cultural.
  35. Quando se entra num dos eléctricos históricos, em Toronto ou São Francisco, vê-se que eles são «velhos», no sentido de «fora de moda», mas, quando se olha em volta para o interior, tudo parece ainda em forma, nada chocalha, as janelas abrem e fecham sem embarrar. O passageiro experimenta uma sensação de qualidade sólida, associada à mesa de jantar de carvalho macicço da avó e à prata de 1847 dos Rodgers Brothers. E isso faz toda a gente sentir-se bem. Ao contrário de — digamos — um autocarro envelhecido. «Histórica» é uma falsa diferença. Esforço de manutenção é um efeito cultural.
  36. Para quem não consegue ver a diferença entre um autocarro e um eléctrico, eu sugiro que dê um passeio de eléctrico, quando tiver oportunidade. Depois, se conseguir localizar um autocarro que siga mais ou menos o mesmo percurso, experimente-o. Compare as duas experiências. Isso, sim, é o ponto de partida para este exercício inteiro. O sistema rodoviário e ferroviário têm muitas diferenças, mas a maioria não são diferenças intrínsecas entre rodovia e ferrovia.

Foi assim que cheguei à afirmação de que seis das 36 diferenças são intrínsecas. Há muitos duplicados, que eu contei, e muitos itens que são misturas. Esta análise nada tem de científico, assim como nada científico havia no processo de elaboração da lista dos 36. Mas creio que a conclusão geral, de que cerca dum sexto da nossa impressão das diferenças entre rodovia e ferrovia é baseada em diferenças reais e intrínsecas entre os dois sistemas, é provavelmente correcta, tendo em conta a minha experiência profissional.

Eu sinto-me obrigado a dizer, mais uma vez, que chamar a algo um efeito cultural não significa que ele não seja importante hoje. Estes factores emocionais podem ser extremamente importantes e, se o leitor os pesar conscientemente e decidir que eles devem prevalecer, eu não tenho razão para discutir esse facto. Mas, quando o leitor decidir pesar um benefício dum efeito cultural mais do que o efeito geométrico negativo (tal como a capacidade de manobrar no trânsito), o leitor estará a apostar que a cultura será tão constante quanto a geometria e a física são. E eu pergunto-me se isso será verdade.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).