Por Carlos Lima

A vagina [1] humana é um dos orifícios corporais abertos ao exterior. A flora vaginal [2] tem a responsabilidade de proteger o aparelho reprodutor e a saída do aparelho urinário feminino (útero [3], trompas e uretra [4]). A estratégia encontrada foi uma combinação de agentes imunitários com um conjunto de microrganismos, em particular bactérias, que contribuem decisivamente para que o meio vaginal seja acentuadamente ácido e tenha um cheiro característico.

A vagina é o segundo local do corpo com maior concentração de bactérias. Ainda que possam ser de várias estirpes, elas pertencem à família dos lactobacilos [5, 6]. Esta família deve o seu nome ao facto dos seus elementos produzirem ácido láctico, pela degradação de glicose, disponibilizada pelas células da parede vaginal. Este meio ácido gera um ambiente em que as restantes bactérias têm dificuldade em sobreviver. Quando tal acontece, a grande quantidade de células do sistema imunitário [7], entre as quais glóbulos brancos [8] e anticorpos presentes nas paredes e nos fluidos vaginais, encarregam-se de manter a situação sobre controlo.

A variação do número de bactérias «boas» a nível vaginal é sensível às fases do ciclo menstrual [9], sendo a fase hemorrágica o período em que é menor, quer por existir um fluxo que arrasta as bactérias, quer por evitar que elas migrem para o útero em grande quantidade, onde se podem tornar agressivas, pois o colo do útero está mais permeável nesta fase.

A utilização de dispositivos menstruais internos (tampões) pode acentuar esse desequilíbrio por arrastamento da flora vaginal, que vem agarrada ao tampão. A utilização de contracepção hormonal e a relação sexual [10] também alteram este equilíbrio: a pílula, pelas alterações hormonais; e a relação sexual, porque o esperma é alcalino.

As situações de ligeiro desequilíbrio que foram focadas são rapidamente reequilibradas pela regulação hormonal [11]; mas existem situações de maior gravidade que podem conduzir a inflamação ou infecção vaginais [12]. Por exemplo, uma quebra ou problema no sistema imunitário faz com que as células imunitárias não controlem as bactérias «boas» e estas proliferem de forma descontrolada, tornando-se patogénicas. O mesmo acontece com a pessoa diabética, que disponibiliza demasiada glicose e, com alimento em abundância, as bactérias multiplicam-se muito mais rapidamente.

Também existem outro tipo de infecções vaginais, causadas por bactéria externas, que geram desconforto, ardor, prurido ou comichão, cheiro forte e corrimento.

Os estreptococos do grupo B [13] podem existir na flora vaginal e intestinal sem se manifestarem ou causarem dano à mulher, mas tornam-se um problema durante o trabalho de parto, se infectarem o bebé. Por esta razão, é realizado o rastreio da presença de estreptococos do grupo B em todas as grávidas, para que as que acusem a sua presença façam terapia antibiótica profiláctica, evitando os riscos da doença no bebé.

A higiene íntima, feita com substâncias que respeitem a flora vaginal; a evicção de roupas apertadas (pois estas limitam a circulação do ar, reduzem a circulação sanguínea e levam ao aquecimento exagerado da vagina); a limpeza do ânus da frente para trás (vagina–ânus), para evitar o arrastamento de bactérias anais para a vagina; e uma boa lubrificação vaginal (natural ou artificial), durante a relação sexual, são algumas das medidas que favorecem uma boa saúde biótica da vagina.

A flora vaginal tem a grande responsabilidade de proteger o aparelho genital e urinário, criando um ambiente hostil à proliferação doutro tipo de bactérias. À mulher, cabe o papel de ajudar, com um conjunto de pequenas regras que favoreçam o equilíbrio e a protecção constantes.

Saúde!