Por Satoshi Kanazawa [a]

Um levantamento exaustivo das sociedades tradicionais em todo o mundo mostra que 83,39 % delas praticam a poliginia, 16,14 % a monogamia, e 0,47 % a poliandria. Quase todas as poucas sociedades poliândricas praticam o que os antropólogos chamam de poliandria fraternal, onde um grupo de irmãos partilha uma mulher. A poliandria não fraternal, onde um grupo de homens independentes partilha uma mulher, é praticamente inexistente na sociedade humana. Por que é que a poliandria não fraternal tão rara?

Primeiro, vamos mais uma vez esclarecer a terminologia, como fizemos antes [2]. A monogamia é o casamento dum homem com uma mulher, a poliginia é o casamento dum homem com mais do que uma mulher, e a poliandria é o casamento duma mulher com mais dum homem. A poligamia é usada no discurso comum como sinónimo de poliginia, mas, em rigor, refere-se, simultaneamente, tanto a poliginia como a poliandria. Os cientistas, portanto, tendem a não usar este termo ambíguo.

Como discutimos no nosso livro «Why Beautiful People Have More Daughters» [Por que as pessoas bonitas têm mais filhas] [3] (Capítulo 2: «Why are men and women so different?» [Por que são os homens e as mulheres tão diferentes?]), a certeza da paternidade é baixo num casamento monogâmico, onde é «suposto» a mulher acasalar com apenas um homem. As estimativas de casos em que o homem, sem saber, cria o filho genético doutro homem nas sociedades monogâmicas variam 13–20% nos Estados Unidos, 10–14% no México, e 9–17% na Alemanha. Por outras palavras, quase um em cada cinco pais americanos pode estar involuntariamente a criar os filhos doutra pessoa, acreditando erroneamente ser geneticamente seus.

Quando vários homens são oficialmente casados com uma mulher, que é «suposto» acasalar com todos eles, os co-maridos têm muito pouca razão para acreditar que um determinado filho dela seja geneticamente seu e, portanto, não estarão muito motivados para investir nele. Se as crianças recebem investimento paterno insuficiente, não vão sobreviver o tempo suficiente para se tornarem adultos e continuar a sociedade. Portanto, a poliandria não fraternal contém as sementes da sua própria extinção.

Pelo contrário, a poliandria fraternal, em que os co-maridos são irmãos, pode sobreviver como uma instituição de casamento, porque, mesmo quando um determinado marido não é o pai genético duma determinada criança (partilhando metade dos seus genes), ele é, pelo menos, o tio genético (partilhando um quarto dos seus genes). O filho dum casamento poliândrico fraternal nunca poderia ser, do ponto de vista genético, completamente alheio a qualquer dos co-maridos (supondo, é claro, que a mulher não tenha acasalado com alguém fora do casamento poliândrico), de modo que todos os co-maridos estão motivados para investir em todas as crianças, seja como seu pai genético ou seu tio genético.

Da mesma forma, o tipo mais bem-sucedido de poliginia é a poliginia fraternal, onde todas as co-esposas são irmãs (embora, ao contrário da poliandria não fraternal, a poliginia não fraternal seja muito comum em todo o mundo). Embora, como eu expliquei num artigo anterior [4], uma mulher, quando dada a escolher entre casar com um homem solteiro e com um homem casado, possa, em certas circunstâncias, optar racionalmente pela poliginia, nunca é do interesse material da primeira esposa que o marido receba outra esposa. Todas as primeiras mulheres sofrem com a adição duma nova esposa à família, porque cada mulher adicional tira recursos do marido, que, doutra forma, estariam disponíveis para a anterior e os seus filhos. Assim, o conflito entre co-esposas em situações de poliginia é muito comum e, por esta razão, os homens, em muitas destas sociedades tradicionais, mantêm uma casa separada para cada mulher. No entanto, o conflito e a competição pelos recursos limitados do marido são um pouco atenuados, quando as co-esposas são irmãs, porque, nesse caso, elas não vão opor-se tão veementemente ao desvio de recursos para a nova esposa e os seus filhos, com quem a primeira esposa está geneticamente relacionada.

Agora, naturalmente, o facto da poliandria ser tão rara na sociedade humana não significa necessariamente que as mulheres casadas, quer em situação de monogamia, quer de poliginia, sempre tenham sido fiéis aos seus maridos e acasalado com apenas um homem. Pelo contrário, como eu expliquei em artigos anteriores, temos provas fisiológicas de que as mulheres sempre foram levemente promíscuas, ao longo da história evolutiva. Consulte «Para saber o que as mulheres andaram a fazer, olhe para os genitais masculinos (parte I) — Os testículos» [5] e «Para saber o que as mulheres andaram a fazer, olhe para os genitais masculinos (parte II) — O pénis» [6].


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).