Por Satoshi Kanazawa [a]

Na cena clímax do filme de terror de 1999, «O projecto Blair Witch», a personagem de Heather Donahue, sentindo a sua morte iminente, e a dos seus amigos, na floresta, vira a câmara em si mesma e diz:

— Quero pedir desculpa à mãe do Josh e à mãe do Mike e à minha mãe.

Dado que o seu projecto cinematográfico acabou levando à morte do Mike e do Josh, bem como à sua própria morte (desculpem estragar o filme a quem ainda não o tenha visto), um pedido de desculpa talvez faça sentido. Mas por que pediu desculpa às mães e não aos pais?

A resposta, duma perspectiva da psicologia evolutiva, é que Heather sabia instintivamente, tal como a maioria de nós, que as crianças são mais importantes para as mães do que para os pais e, por consequência, a sua perda seria mais devastadora para as mães do que para os pais. Não é difícil encontrar provas abundantes do facto de que as mães são mais dedicadas aos seus filhos do que os pais. Por exemplo, quando casais com filhos se divorciam, é mais provável as crianças ficarem com a mãe do que com o pai, especialmente se foram ainda pequenas. De acordo com a «Current Populatoin Survey» de Março/Abril de 1992, realizada pelo Gabinete de Censos dos EUA numa amostra nacionalmente representativa, 86% das custódias dos filhos estão atribuídas às mães. Além disso, muitos dos pais sem a guarda, que concordaram em pagar pensão de alimentos, voluntariamente ou através de ordem judicial, falham esse compromisso e tornar-se «pais caloteiros». O primeiro inquérito nacional sobre a pensão de alimentos, realizado em 1978, revelou que menos de metade (49 %) das mulheres a quem foi concedida pensão de alimentos recebeu, de facto, o montante total devido; e mais dum quarto (28 %) não recebeu um único pagamento. Estes valores percentuais mantiveram-se mais ou menos constantes desde então. Em 1991, 52 % dos titulares da custódia da criança com direito a pensão de alimentos receberam o valor total, 25 % nada receberam. Então, a pergunta mantém-se: por que se dedicam as mulheres mais aos filhos do que os homens? Por que existem tantos pais caloteiros, mas tão poucas mães caloteiras?

À primeira vista, essa diferença enorme entre os sexos na dedicação aos filhos pode parecer confusa, uma vez que tanto a mãe como o pai estão igualmente relacionados com os seus filhos geneticamente; cada um dos pais transmite metade dos seus genes à criança. No entanto, existem dois factores biológicos, que se combinam para tornar os pais muito menos comprometidos com os filhos do que as mães.

O primeiro factor é a incerteza de paternidade. Como a gestação, em todos os mamíferos (incluindo os humanos), ocorre dentro do corpo da fêmea, o macho nunca pode estar certo da sua paternidade, ao passo que a maternidade é sempre certa; e a incerteza de paternidade não é uma possibilidade teórica remota. Conforme mencionei num artigo anterior [2], a incidência estimada de homens que criam e investem na descendência genética doutro homem, sem saber, nas sociedades ocidentais contemporâneas, é substancial (entre 10 % e 30 %). Assim, esta é uma possibilidade muito real para qualquer pai na sociedade ocidental contemporânea e. provavelmente, noutros lugares ao longo da história humana. Naturalmente, os homens não estão motivados para investir em crianças que têm uma clara possibilidade de não ser geneticamente suas.

O conceito paralelo de incerteza de paternidade e certeza de maternidade é bem descrito no ditado popular: «filhos de minha filha meus netos são; os de minha nora serão ou não». Qualquer mãe, não só entre os seres humanos, mas entre todas as espécies de mamíferos, tem a certeza de que a criança que acaba de dar à luz é sua; nenhuma mulher jamais imaginou, no momento em que uma criança sai do seu corpo:

— Hum… Pergunto-me se esta criança é mesmo minha…

Por seu turno, todos os pais perguntam, explícita ou implicitamente. Alguns questionam-se mais do que outros, mas nenhum pai jamais esteve completamente certo da sua paternidade. O melhor que ele alguma vez poderá dizer é:

— Talvez.

Assim, a incerteza da paternidade é a primeira razão pela qual os pais são menos dedicados aos seus filhos do que as mães. Vou discutir a segunda razão no próximo artigo.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).