Por Hugo Pinto de Abreu

Quem acompanhe este «Consultório…» [1] há algum tempo sabe do meu apreço pela História [2], pelo estudo da História, e pelas lições que ela nos dá. Deparei-me com um documento histórico, que pode contribuir muito para as reflexões do tempo de hoje. Trata-se do discurso do Presidente dos Estados Unidos da América, Harry Truman, ao Congresso Norte-Americano, reunido em sessão especial a 12 de Março de 1947, a propósito da Grécia e da Turquia; um discurso absolutamente histórico e marcante no desenrolar do pós-Segunda Guerra Mundial, já no contexto emergente de Guerra Fria com o bloco Soviético.

Esta semana, limitar-me-ei a expor, em tradução de minha autoria, alguns trechos do discurso de Truman, deixando os meus comentários para a próxima semana. Permitam-me uma brevíssima contextualização: quer a Grécia, por uma guerra civil contra milícias comunistas; quer a Turquia, por aspirações geoestratégicas da União Soviética relacionadas com o estreito do Bósforo e o Mar Egeu, se encontravam à beira do colapso, tendo solicitado ajuda americana. Um ano depois, entrava em vigor o Plano Marshall.

Passo então à leitura de excertos da mensagem especial do Presidente Truman ao Congresso Norte-Americano, no dia 12 de Março de 1947 [3]:

A gravidade da situação com que o mundo é confrontado nos nossos dias requer a minha presença perante uma sessão conjunta do Congresso.

[…]

Os Estados Unidos receberam do governo grego um pedido urgente, para a concessão de assistência económica e financeira. […]

Não creio que o povo americano e o Congresso queiram ignorar o apelo do governo grego.

A Grécia não é um país rico. A falta de recursos naturais sempre forçou o povo grego a trabalhar duramente para sobreviver. Desde 1940, este país trabalhador e amante da paz sofreu uma invasão, quatro anos de cruel ocupação inimiga e uma amarga luta interna.

Quando as forças de libertação entraram na Grécia, descobriram que os Alemães em retirada tinham destruído praticamente todos os caminhos-de-ferro, as estradas, as infraestruturas portuárias, as comunicações e a marinha mercante. Mais de mil aldeias haviam sido queimadas. […]

Como resultado destas condições trágicas, uma minoria militante, explorando a escassez e a miséria, foi capaz de criar o caos político que, até ao momento, impossibilitou a recuperação económica.

[…]

As sementes dos regimes totalitários são alimentadas pela escassez e pela miséria. Espalham-se e crescem no solo mau da pobreza e da discórdia. Atingem o seu máximo quando a esperança do povo numa vida melhor tenha morrido.

Nós temos de manter essa esperança viva.

A análise das lições contidas neste discurso proferido a 12 de Março de 1947 fica para o «Consultório…» [1] da próxima semana.