Por Satoshi Kanazawa [a]

No meu último artigo [2], eu expliquei que a incerteza da paternidade — a possibilidade real de traição — é uma das razões pelas quais os pais são menos dedicados aos filhos do que as mães. A outra razão é a ausência, nos homens, do proverbial «relógio biológico».

O segundo factor biológico que faz com que pais sejam menos dedicados é o seu maior potencial reprodutivo. Os fetos desenvolvem-se durante nove meses dentro do corpo feminino e as crianças são, pelo menos no passado, cuidadas pela mãe durante vários anos após o nascimento, período durante o qual a mãe é geralmente infértil (amenorreia da lactação). As mulheres também têm uma vida reprodutiva muito mais curta do que os homens, devido à menopausa. Esses dois factores combinam-se, para criar um potencial reprodutivo muito maior para homens do que para as mulheres.

Os homens podem, potencialmente, ter muito mais filhos do que as mulheres. O maior número de filhos que um homem já teve é de, pelo menos, 1042. O último imperador xarife de Marrocos, Mulei Ismael, o Sanguinário, manteve um grande harém, como era costume entre os governantes antigos, e teve pelo menos 700 filhos e 342 filhas. O número exacto de crianças que Mulei Ismael teve durante a vida não é conhecido, porque se parou de contar ao fim dalgum tempo. A razão pela qual o número registado de filhos é mais do dobro do número registado de filhas é porque se parou de contar as filhas muito antes de parar de contar os filhos.

Em contrapartida, o maior número de filhos que uma mulher já teve é ​​69. A esposa dum camponês russo do século XVIII, Feodor Vassiliev, teve 27 gestações durante a vida, incluindo dezasseis pares de gémeos, sete conjuntos de trigémeos e quatro conjuntos de quadrigémeos; surpreendentemente, a sr.ª Vassilyeva nunca teve quaisquer partos únicos em sua vida! E 67 dos seus 69 filhos sobreviveram até à idade adulta.

O número exacto de filhos de Mulei Ismael, o Sanguinário, e da Sr.ª Vassilyeva não é importante. O que é importante é o seguinte: o maior número de filhos que um homem pode ter, potencialmente, é superior em duas ordens de magnitude ao número potencial de filhos que uma mulher pode ter (milhares vs. dezenas).

Esta diferença sexual considerável no número potencial de filhos significa que, ainda que o sucesso reprodutivo seja igualmente importante para homens e mulheres (na verdade, para todos os organismos biológicos), cada criança é muito mais importante para a mãe do que para o pai. Cada criança representa uma proporção muito maior da vida do potencial reprodutivo duma mulher do que dum homem. Se uma mãe de quarenta anos de idade abandona os seus cinco filhos e estes morrem por consequência, ela provavelmente vai acabar a vida sem exercer o seu potencial reprodutivo, não tendo conseguido deixar qualquer cópia dos seus genes à geração seguinte. Se um pai de quarenta anos de idade fizer o mesmo, ainda pode produzir mais cinco (ou dez, ou vinte) filhos.

Tanto a incerteza da paternidade como o maior potencial reprodutico tornam os pais menos dedicados aos filhos do que as mães; e é por isso que há mais pais caloteiros do que mães; muito poucas mulheres abandonam ou negligenciam os filhos. Ironicamente, é a maior dedicação da mãe que permite ao pai negligenciá-los ainda mais. Conhecendo a superior dedicação da mãe aos seus filhos, o pai pode abandoná-los, com a certeza de que a mãe nunca faria o mesmo, porque, se o fizesse, as crianças estariam praticamente condenadas à morte. Por outras palavras, os pais divorciados com filhos fazem um braço de ferro e, geralmente, é a mãe que perde. A maioria dos pais, provavelmente, preferiria investir nos filhos e criá-los, em vez de vê-los morrer, mas eles, normalmente, não têm de tomar essa decisão, porque sabem que a mãe nunca iria abandoná-los. A maior dedicação da mãe aos filhos, ironicamente, permite que o pai possa ter o melhor de dois mundos, avançando para o casamento seguinte e uma nova família a que se dedicar.

Vou terminar esta colecção [3] com o próximo artigo, em que discutirei mais um exemplo da «excepção que confirma a regra».


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).