Por Hugo Pinto de Abreu

Na última crónica [1], transcrevi um segmento alargado do discurso do Presidente dos Estados Unidos da América, Harry Truman, ao Congresso Norte-Americano, reunido em sessão especial a 12 de Março de 1947, relativo a um pedido de assistência económica e financeira solicitado pela Grécia. Faço um pequeno resumo: Truman começa por descrever a destruição a que a Grécia foi sujeita pela invasão alemã na Segunda Guerra Mundial; depois defende, numa alusão ao perigo da Grécia e outros países caírem na zona de influência soviética, que «[a]s sementes dos regimes totalitários são alimentadas pela escassez e pela miséria [e a]tingem o seu máximo quando a esperança do povo numa vida melhor tenha morrido»; e conclui, portanto: «[n]ós temos de manter essa esperança viva.»

Esta é, creio eu, uma excelente resposta àqueles que, para citar a feliz expressão de José Pacheco Pereira, a cada problema, a cada proposta, a cada solução, disparam inevitavelmente com as perguntas: «quanto custa?» e «quem paga?».

O que essas perguntas traem, e o que o discurso que aqui trouxemos releva, é que considerações económicas e financeiras podem e devem colocar-se ao serviço da política — da política no seu sentido mais nobre, isto é, dum projecto de civilização e de sociedade. Isto não significa, evidentemente, que a política seja capaz de tudo e tudo comande; aliás, o exemplo soviético é bem revelador da insustentabilidade dum gigante político e militar sem uma economia minimamente robusta.

Sobretudo, o que as perguntas («quanto custa? quem paga?») traem e o que este discurso releva é que, quando existem um compromisso e uma determinação sérios em defesa dum projecto de civilização, paga-se o que for preciso e todos quantos a defendem estão dispostos a contribuir; releva também o fracasso do projecto europeu tal como está, ou seja, o corolário é: se as primeiras perguntas são saber quanto custa e quem paga, isso traduz a descrença e a indisponibilidade de quem as profere para sustentar uma União Europeia coesa, para apoiar o seu projecto político de longo prazo, independentemente dos custos. Traduz, enfim, uma Europa — e, talvez mais amplamente, uma civilização ocidental — que já não acredita no seu projecto político, que já não está disposta a lutar pelo seu modelo de sociedade, uma apatia do «tanto faz», em que cada um procura prosseguir o seu interesse individual, não se apercebendo de que o contexto adequado para o fazer livremente é, necessariamente, fruto dum projecto colectivo, isto é, reveste carácter social.

O segundo aspecto que gostaria de realçar é a ênfase na esperança, que é, no discurso de Truman, apresentada como a razão mais transcendente para o apoio à Grécia. Retomaremos esta discussão no «Consultório…» [2] da próxima semana.