Por Gustavo Martins-Coelho

Li recentemente um artigo muito interessante, intitulado: «Por que anda o meu médico sempre atrasado?» [1]. Apesar de ser um artigo escrito por uma médica de família americana, retrata com um elevado grau de aproximação a realidade dos médicos de família portugueses — e também a dos especialistas hospitalares do nosso País —, pelo que achei que seria profícuo discuti-lo neste espaço [2], para ajudar a compreender a realidade dos serviços de saúde em Portugal e suscitar a reflexão sobre o tema.

A dr.ª Sanaz Majd [3] começa por dizer que detesta a falta de pontualidade. Eu também. Chegar atrasado a um compromisso é uma falta de respeito para com os demais; é como que afirmar, com uma certa dose de arrogância, que o meu tempo vale mais do que o teu, por isso não faz mal em que tu o desperdices à minha espera. Ora, eu também tenho coisas mais úteis para fazer, do que esperar por ti!

Mas já estou a divagar… A verdade é que a dr.ª Sanaz Majd se atrasa todos os dias, nas suas consultas. Eu atraso-me menos, porque, como já expliquei quando dei início a este «Consultório…» [4, 5], raramente atendo doentes. Mas, nas poucas vezes em que dou consultas, não é raro atrasar-me. Regra geral, todos os médicos se atrasam e todos os doentes estão habituados a que assim seja.

O artigo da dr.ª Sanaz Majd tenta, então, explicar a razão desta realidade, pegando numa descrição, com um pouco de humor, mas bastante precisa, do que é o dia-a-dia dum médico de família americano — e, por extensão, dum médico português; como já referi, as duas realidades não são, neste ponto, assim tão diferentes. Vejamos, então, como é um dia na vida do dr. «Tardio» [1].

As consultas estão agendadas de vinte em vinte minutos, entre as 8h30 e as 12h10. O primeiro doente é o sr. «Nunca Vou ao Médico». Como nunca vem ao médico, não sabe que tem de chegar quinze minutos antes da hora marcada, para se inscrever no secretariado, de modo que chega pontualmente às 8h30, mas só entra às 8h40 para a sala da enfermeira, porque é preciso tratar da papelada primeiro. Medir os sinais vitais demora mais cinco minutos, de modo que só às 8h45 é que a médica pode começar a trabalhar. Restam-lhe cinco minutos de consulta, segundo a agenda, mas ainda demora a abrir o sistema informático, de modo que a consulta do sr. «Nunca Vou ao Médico» começa, de facto, à hora a que devia estar a terminar. Um quarto de hora depois, o sr. «Nunca Vou ao Médico» está despachado, mas, entretanto, aparece um doente doutro médico, que está de férias, sem consulta marcada, «só para mostrar um exame, que lhe disseram para mostrar com urgência ao médico». O exame é um electrocardiograma, que tem uma alteração, mas, como o dr. «Tardio» não conhece o doente, gasta mais cinco minutos a consultar a sua ficha clínica no arquivo do colega de férias, para perceber qual a medida mais adequada.

Com isto, são 9h10 e a doente das 8h50 ainda não foi chamada. A sorte é que se trata da sr.ª «Infecção Urinária», que é fácil de tratar. Em dez minutos, fica o assunto arrumado: o tratamento receitado e os exames adequados prescritos. O pior é fazer o registo no computador: são mais cinco minutos. Mas, pelo menos, deu para recuperar cinco minutos de atraso!

Às 9h25, entra a doente das 9h10. A sr.ª «Acidente Vascular Cerebral», de 87 anos, teve um AVC, desde a última consulta. O dr. «Tardio» precisa de: ler a nota de alta do hospital; pedir consultas com especialistas em Medicina Física e Reabilitação, Terapia da Fala e Neurologia; ouvir a família e aconselhá-los, nesta fase de adaptação às sequelas do AVC; e tomar medidas para melhorar o controlo da diabetes da doente, para prevenir um novo AVC. Não é possível encaixar tudo isto em vinte minutos: a sr.ª «Acidente Vascular Cerebral» sai — devagar — do consultório às dez horas da manhã.

Quem também já está a ficar atrasado sou eu, pelo que talvez seja melhor continuar a saga do dr. «Tardio» para a semana!