Por Gustavo Martins-Coelho

Na semana passada, deixámos a nossa história dum dia na vida do dr. «Tardio» [1], no momento em que a sr.ª «Acidente Vascular Cerebral» saía do seu consultório. Nesse momento, tocou o telefone: era uma doente, assustada com um valor anormal numas análises que o dr. «Tardio» lhe tinha pedido; e tinha razões para estar assustada: o dr. «Tardio» disse-lhe para ir imediatamente à urgência mais próxima. A doente não queria, por causa da taxa moderadora, de modo que a chamada ainda durou uns bons cinco minutos, até o dr. «Tardio» conseguir convencê-la.

A sr.ª «Check-up» tinha a consulta marcada para as 9h30, mas só foi chamada às 10h05. A sr.ª «Check-up» queria resolver quatro problemas duma vez: a sua hipertensão arterial, a dor lombar, os sintomas depressivos e o rastreio do cancro do colo do útero. Isto tudo leva meia hora a completar — e já vamos em três quartos de hora de atraso!

Felizmente, as consultas seguintes são «dois em um»: a mãe traz os dois filhos à consulta, porque estão os dois com tosse e o nariz entupido. Como a doença e o tratamento é o mesmo para ambos, o dr. «Tardio» demora 25 minutos a fazer as duas consultas, recuperando um quarto de hora do atraso. Sorte!

Às onze, entra a sr.ª «Diabetes», que tinha consulta marcada para as 10h30, que diz que quer deixar de fumar. O dr. «Tardio» avalia o controlo do açúcar no sangue, explica como fazer para deixar de fumar e, quando estão a acabar os vinte minutos da consulta, a sr.ª «Diabetes» deixa cair que anda há três semanas com dores no peito — e é por isso que quer deixar de fumar. Assim se passam mais vinte minutos, a estudar a tal dor no peito, que não é coisa que se possa deixar para a consulta seguinte: cinquenta minutos de atraso!

O doente seguinte tem um GPS novo e atrapalha-se, para tentar chegar ao centro de saúde, porque se mudou há pouco tempo para cá e é a sua primeira consulta. Estava marcado para as 10h50, mas só chegou às 11h05. A sorte é que, como o dr. «Tardio» também está atrasado, o sr. «Preciso dum GPS» ainda teve de esperar um pouco mais de meia hora.

A sr.ª «Tristeza» vem com queixas de formigueiros nas mãos e nos pés, dores de barriga, falta de ar e sentimentos de ansiedade. A intuição do dr. «Tardio» leva-o a suspeitar duma depressão, a doente acaba por referir que pensa todos os dias em matar-se e o dr. «Tardio» passa quarenta minutos com ela, a tentar perceber o nível de depressão e se a ideação suicida é real.

São 12h40 e é a vez do doente das 11h30… O sr. «Hipertensão» demora os vinte minutos agendados a ser atendido, tal como o doente seguinte, o último da manhã, que deveria ter sido atendido às 11h50 e sai do consultório do dr. «Tardio» às 13h20 — o que significa que o dr. Tardio não vai almoçar e ainda vai começar as consultas da tarde já com dez minutos de atraso. Pelo caminho, ainda é preciso renovar as receitas dos doentes crónicos, ver os exames que os doentes deixaram no secretariado, registar os resultados dos rastreios no computador — ao final da tarde, o dr. Tardio ainda vai ficar, para além do seu horário, mais uma hora ou duas, para fazer todas as tarefas que tem em mãos.

De quem é a culpa? Será que o dr. Tardio devia dizer mais vezes que não? Será que ele podia ter respondido à sr.ª «Diabetes» que marcasse outra consulta, para falar da dor no peito? Será que ele podia ter ignorado o electrocardiograma do doente do colega e tê-lo mandado esperar pelo regresso de férias do seu médico? Será que ele podia ter deixado a sr.ª «Tristeza» ir embora, simplesmente, com uma carta para o psiquiatra? Ou será que o período de consultas de vinte minutos deveria ser alargado?…