Por Gustavo Martins-Coelho

Conforme escrevi há quinze dias [1], «[t]udo é ideológico, embora, às vezes, a ideologia possa estar tão escondida que não a vemos, ou atribuímos os efeitos observados a outras causas, também ideológicas, mas de sentido diferente.» A discussão sobre o financiamento do ensino superior é mais um exemplo, ao qual acresce o inconveniente de haver demasiada gente a falar do que não sabe. Mas, assim sendo, eu sinto-me perfeitamente à vontade para também falar do que não sei, visto que já não serei o primeiro a fazê-lo e é sempre melhor fazer idiotices em grupo; e aproveito o ensejo para — até — estar de acordo com alguém de quem costumo, habitualmente, discordar [2, 3]. Diz o Ricardo Campelo de Magalhães [4]:

O Ensino Superior não deve ser Universal, pois [a] sociedade precisa de agricultores, canalizadores, electricistas, camionistas, cabeleireiros, porteiros, cozinheiros, proletários, e de muitos outros trabalhadores que fazem uma Economia funcionar e que não necessitam de um curso superior para cumprir as suas funções […].

Ora nem mais: nem todos podemos ser doutores — ponto final. Não aceitar esta verdade é como negar que a Terra anda à volta do Sol. Mas, se nem todos podemos ser doutores, então a liberdade de escolha é, em certa medida, uma ilusão: de facto, ao contrário do que os pais dizem romanticamente aos filhos, na altura de escolher o que querem ser quando forem grandes, ninguém é realmente livre de ter a profissão que quiser; é livre de tentar ter a profissão que quiser. Neste capítulo, um dos melhores conselhos que a minha mãe me deu na vida foi, precisamente, o de estudar Medicina — visto que esse curso me habilitaria a fazer aquilo que eu dizia que gostaria de fazer no futuro, dando-me, ao mesmo tempo, muitas outras saídas que, não sendo da minha preferência, poderiam ser úteis para não acabar desempregado ou a fazer algo que detestasse, se não conseguisse atingir o objectivo primário (e que outros cursos que também me permitiriam perseguir o objectivo principal não davam). Mas dizia eu que apenas se é livre de tentar ter a profissão que se quer; e digo «tentar», porque não é por se fazer um curso em Estudos Portugueses que se vai ter um emprego garantido nessa área (quais são as saídas profissionais dum especialista em Estudos Portugueses, ao certo, já que falamos nisso?). À saída da faculdade, é preciso que haja um empregador disposto a contratar o licenciado, ou, no caso deste se estabelecer por conta própria, que haja um consumidor (de preferência, vários) disposto a adquirir o produto ou serviço que este comercializa. Se todos quiserem ser astronautas, haverá, inevitavelmente, um filtro, que deixará alguns de fora. Assim sendo, é necessário responder à seguinte pergunta: se tem de haver um filtro, onde deve este ser colocado: à entrada na faculdade, ou à entrada no mercado de trabalho? Embora haja quem discorde, pessoalmente, acredito ser preferível destruir os sonhos dum adolescente de dezoito anos, do que os dum jovem de vinte e poucos — apenas porque, quanto mais tempo se demorar a fechar a porta, maior terá sido o investimento e, portanto, maior será a perda — para o próprio e para a sociedade [5].

Veremos, daqui a duas semanas, que este planeamento e a restrição do acesso ao ensino superior trazem uma vantagem adicional, mas, para já, permita-me o leitor fazer uma diversão, para comentar a distinção que o Ricardo efectua, no mesmo artigo em que faz a afirmação transcrita acima, dos cursos superiores, dividindo-os entre aqueles que têm utilidade e os que a não têm [4]. Esta divisão é sintomática duma certa mentalidade tendencialmente maniqueísta, que olha o mundo dum quadrante extremista do positivismo iluminista: dum lado, as disciplinas científicas, que acrescentam conhecimento positivo à humanidade; do outro, as disciplinas artísticas, bonitas à vista, mas tão inúteis como fogos-fátuos. Sob pena de ser deserdado pelos meus pais, pergunto: qual é exactamente a utilidade dum economista? Produz alguma coisa? Presta serviços? Tem alguma utilidade prática no dia-a-dia do ser humano comum? A resposta é: não. A Gestão e a Contabilidade, como ferramentas úteis ao sucesso duma empresa, são diferentes da Economia, enquanto ciência. De acordo com a sua própria definição, a única coisa que a ciência económica oferece à humanidade é conhecimento — sobre a forma mais eficiente (mas não necessariamente eticamente adequada) de afectar recursos escassos a necessidades potencialmente ilimitadas. Vale a pena investir na produção deste conhecimento? Não sei, mas, a ver pelas barbaridades experimentalistas que a troika fez em Portugal e noutros países [6], talvez estivéssemos melhor na ignorância… E, no entanto, aventuro-me a afirmar que, para o Ricardo, a Economia cairia certamente no saco dos cursos com utilidade e os Estudos Portugueses, que também produzem conhecimento, no dos cursos sem utilidade… Com base em que critério? Não é importante haver quem estude e compreenda a Língua Portuguesa, as suas raízes clássicas, as suas ramificações transatlânticas e africanas e a sua interligação com os laços culturais que tecem um mundo lusófono? Além de que, se todos soubéssemos um pouco mais de Estudos Portugueses, talvez houvesse menos gente a falar Francês como texanos [7] ou a erguer postes [8] em tudo quanto é sítio!

Com este remoque, afastei-me da questão, que é a de saber quem paga o ensino superior, e alarguei-me no palavreado, pelo que talvez seja melhor continuar daqui a quinze dias, para não cansar demasiado o leitor…