Por Gustavo Martins-Coelho

Retomo hoje, ainda, o tema dos atrasos nas consultas médicas [1] — um problema que persiste, apesar de se ter reduzido na última década. Causas? Na semana passada [2], apontei a falta de autonomia dos médicos e a eficiência exigida aos gestores dos serviços de saúde; e também o difícil equilíbrio entre o número de doentes que precisam duma consulta, o número de consultas que cada médico pode dar e o número de médicos disponíveis.

Esta semana, quero falar da imprevisibilidade. Na verdade, as consultas não têm todas a mesma duração: dependendo do tipo de consulta, da especialidade, de ser ou não a primeira vez que aquele doente consulta aquele médico, o sistema de agendamento atribui tempos de duração diferentes à consulta. No entanto, tal pode não ser suficiente, mesmo assim, porque a marcação de consultas é um processo administrativo, insensível às diferentes queixas dos doentes e às suas diversas histórias médicas prévias. Mesmo que seja possível atribuir uma duração diferente para as consultas de hipertensão e de diabetes, na unidade de saúde familiar, nem todas as hipertensões ou diabetes são iguais e, logo, não necessitam do mesmo tempo de consulta.

Mais: a maioria das consultas, na prática diária, não tem um motivo apenas, apesar de ser isso que consta no registo administrativo. Os doentes queixam-se, frequentemente, de mais do que um problema — e o médico não pode ser insensível a isso. Por exemplo, uma doente que vem à consulta de planeamento familiar, mas que apresenta um valor de tensão arterial elevado naquele dia, acaba a fazer uma consulta de hipertensão «escondida» no registo do planeamento familiar.

Há ainda uma outra causa dos atrasos, que se aplica apenas às consultas em ambiente hospitalar: os médicos não se limitam a dar consultas; têm o internamento, o serviço de urgência e, nalguns casos, o bloco operatório. Um atraso numa destas outras tarefas do médico pode levar ao atraso no início do período de consultas. Um doente internado que requer uma intervenção urgente do médico pode obrigá-lo a interromper a consulta a meio.

Mas, apesar de tudo, estamos hoje melhor do que estávamos há alguns anos. Eu ainda sou do tempo, como soi dizer-se, em que havia três turnos de consulta: o das oito, o das onze e o das duas. Independentemente da duração da consulta, todos os doentes tinham de estar presentes à hora do início do turno e eram atendidos por ordem de chegada. Ou seja, havia gente a chegar às seis horas da manhã, para serem atendidos às oito — o que fazia todo o sentido: era preferível ser o primeiro a ser atendido, às oito horas (o que, para quem tinha chegado às seis, significava duas horas de espera), do que chegar às oito, ficar no fim da fila e ter de esperar três horas. Nesse tempo, os serviços eram organizados em torno do profissional e do aproveitamento do seu tempo o melhor possível. Não havia atrasos, porque as longas esperas estavam institucionalizadas. Hoje em dia, já não é assim: tem-se hora marcada para a consulta; e o atraso é indesejável.

Mas, apesar de tudo, há coisas que podemos fazer, para reduzir ainda mais os atrasos. A primeira delas — perceber onde está o problema — acabámos de fazer. A segunda é tomar consciência do que podemos fazer, para resolver esse problema que acabámos de analisar. Claro que podemos escrever ao Ministro da Saúde, a pedir para aumentar a duração das consultas, mas há mais coisas que podemos fazer, com efeitos imediatos. Falarei disso para a semana.