Por Gustavo Martins-Coelho

Na semana passada [1], prometi sugestões de como reduzir o atraso no médico.

A primeira delas é procurar marcar a consulta para o início da manhã, ou da tarde. Os atrasos tendem a acumular-se ao longo do dia, pelo que são menores ao princípio da manhã, ou da tarde (neste caso, porque a folga do almoço permite recuperar dos atrasos da manhã). A excepção é se o médico tiver outras tarefas, como sejam a visita aos doentes internados, antes do início do período de consulta. Mas, no sector dos cuidados primários, como a grande maioria do trabalho do médico se passa no seu consultório, esta estratégia costuma resultar bem.

Outra estratégia é chegar mais cedo, para realizar as tarefas administrativas antes do início da consulta. O benefício individual é reduzido, é certo, mas, se todos os doentes tiverem esse cuidado, diminui-se muito os atrasos, globalmente, para todos. É uma questão de civismo e de respeito pelo próximo.

Relacionada com esta sugestão, está a oposta: não chegar demasiado cedo. Fruto da tradição, do tempo em que todos tinham de chegar às oito da manhã, ou às onze, ou às duas, sendo atendidos por ordem de chegada [1], muitos doentes continuam a fazê-lo, aguardando depois até à hora marcada de antemão para a consulta. É um desperdício do seu próprio tempo e pode, inclusivamente, gerar atrasos para os restantes doentes, se os obrigar a esperar na recepção, para se inscreverem para a sua própria consulta.

Outra possibilidade, que se pratica noutros países, é telefonar, no próprio dia, a perguntar se o médico está atrasado. Mas tal não é uma tradição nos nossos serviços de saúde e pode levá-lo a perder a consulta, se lhe disserem que sim e, entretanto, o médico recuperar do atraso, por exemplo, porque o doente antes de si faltou.

Falando nisso: não falte à consulta. Ou, se tiver mesmo de ser, avise com tanta antecedência quanto possível. É certo que um doente que falta reduz a pressão sobre o médico e, muitas vezes, até o ajuda a recuperar do atraso daquele dia. Mas, por outro lado, com frequência, acaba por ter a sua consulta marcada para uma data posterior, em que a agenda do médico já está completa, sobrecarregando-a e contribuindo para um atraso ainda maior, nesse dia.

Não guarde as suas preocupações mais importantes para o fim da consulta. Deixe o médico abordar primeiro, com mais calma, aquilo que realmente o levou à consulta, sem hesitação. Se só falar naquela dor que anda a preocupá-lo há duas semanas depois de tudo o resto, o seu médico, certamente, não o deixará ir embora sem esmiuçar esse problema, mas a consulta durará mais do que o esperado e atrasará todos os doentes que vierem depois de si.

Conte um conto, não um romance. Além de começar pelo que é mais importante para si, descreva o que o apoquenta sucintamente, sem se perder em meandros e detalhes que, frequentemente, têm muito pouca relevância para o diagnóstico e o tratamento. Se o médico desejar aprofundar algum aspecto, ele provavelmente perguntará. Com isso, obterá uma consulta mais focada no seu problema, sem distracções doutra ordem.

Estas sugestões podem diminuir o tempo que passa no médico, dando-lhe mais tempo para fazer aquilo de que realmente gosta, ou precisa. Além disso, muitas delas também ajudam a reduzir o tempo que os doentes depois de si também passarão à espera de serem atendidos. Como benefício adicional, ainda receberá cuidados de saúde de melhor qualidade.