Por Satoshi Kanazawa [a]

Em todas as sociedades humanas, sem excepção, os homens cometem a esmagadora maioria de todos os crimes e actos de violência. Porquê? Por que são os homens muito mais criminosos e violentos do que as mulheres?

Há muitos universais culturais — características da sociedade humana que são partilhados por todas as culturas conhecidas. Donald E. Brown produziu a lista original de «universais humanos» (e escreveu um livro inteiro sobre eles, apropriadamente intitulado «Human universals» [Universais humanos]), em 1991, e Steven Pinker actualizou-a em 2002, no seu livro «The blank slate» [A lousa em branco]. Há, provavelmente, tantos universais culturais (ao contrário do que Franz Boas e os deterministas culturais acreditam [2]), porque a cultura humana é uma manifestação da natureza humana a nível da sociedade e a natureza humana é universal para todos os seres humanos. É por isso que todas as culturas humanas são mais ou menos a mesma [3] e existem tantos universais culturais. Um dos muitos universais culturais é o facto de que os homens, em todas as sociedades, são muito mais criminosos e violentos do que as mulheres.

Como eu expliquei num artigo anterior [4], os seres humanos em, toda a sua história evolutiva, foram efectivamente polígamos; e muitos homens casados ​​tinham várias mulheres. Numa sociedade polígama, alguns machos monopolizam o acesso reprodutivo a todas as fêmeas, enquanto outros machos são deixados de fora; numa tal sociedade, alguns homens não conseguem reproduzir-se de todo, enquanto quase todas as mulheres o fazem. Por outras palavras, há uma grande diferença entre os sexos na variação da sua vantagem adaptativa: a diferença entre «vencedores» e «perdedores» no jogo reprodutivo é muito maior entre os homens do que entre as mulheres. Esta grande diferença entre os sexos na variação da vantagem adaptativa torna os machos altamente competitivos, no seu esforço de não ficarem completamente de fora do jogo reprodutivo. Esta competição entre os homens leva a um alto nível de violência (assassinato, agressão e violência física) entre si. O grande número de homicídios entre os homens (em comparação com o número de homicídios entre mulheres, ou entre os sexos) é uma consequência directa dessa competição masculina por parceira.

No seu abrangente estudo sobre homicídios, as grandes autoridades da psicologia evolutiva Martin Daly e Margo Wilson notaram que a maioria dos homicídios entre homens tem origem no que é conhecido como «altercações triviais». Um homicídio típico da vida real não é como o retratado num episódio de «Columbo»: premeditado, bem planeado e quase perfeitamente executado por um assassino meticuloso e inteligente. Em vez disso, começa como uma luta sobre assuntos triviais de honra, estatuto e reputação entre homens (como quando um homem insulta outro ou corteja a namorada do outro). As lutas escalam, porque nenhum está disposto a recuar, até que se tornam violentos e um dos homens acaba morto. Como as mulheres preferem acasalar com homens de alto estatuto e de boa reputação, o estatuto e a reputação dum homem correlacionam-se directamente com o seu sucesso reprodutivo: quanto maior o estatuto e melhor a reputação do homem, maior sucesso reprodutivo ele obterá. Os homens estão, portanto, altamente motivados (ainda que inconscientemente) para proteger a sua honra e, muitas vezes, tomam medidas drásticas para o fazer. Daly e Wilson explicam assim os homicídios entre os homens em termos do seu desejo (em grande parte inconsciente) de proteger o seu estatuto e a sua reputação, numa tentativa de obter sucesso reprodutivo junto das mulheres.

A violação pode parecer uma excepção a este raciocínio, pois, ao contrário dos assassinatos e das agressões, as vítimas de violação são geralmente mulheres e não há, portanto, qualquer competição masculina por estatuto e reputação. No entanto, o mesmo mecanismo psicológico que leva os homens a procurar sucesso reprodutivo junto das mulheres ao competirem uns com os outros também pode motivar os homens a cometer violação. Os violadores em série são predominantemente homens de classe baixa e reduzido estatuto, que têm perspectivas muito sombrias de sucesso reprodutivo legítimo junto das mulheres. Embora não seja uma manifestação da competição sexual e violência entre o género masculino, a violação pode ser motivada por mecanismos psicológicos dos homens, que os incitam a procurar acesso reprodutivo às mulheres de forma ilegítima, quando não têm os meios legítimos para o fazer.

Aliás, é por isso que a pena de morte não consegue evitar os assassinatos. A lógica da pena de morte assume que a maioria dos assassinatos é premeditada. Um assassino potencial peas com cuidado e de forma racional os custos e os benefícios do acto e decide não cometê-lo, se os custos superarem os benefícios. Esta pode se a descrição dum assassino fictício em «Columbo», mas não a dos assassinos da vida real, que não param para pensar, antes de deixarem as suas altercações triviais degenerarem em lutas fatais.

A lógica da pena de morte também assume que a execução é o pior desfecho possível. Do ponto de vista da psicologia evolutiva, há algo pior do que a morte: a total incapacidade reprodutiva que atingirá qualquer homem que não compita por parceiras, numa sociedade poligâmica. Se eles competirem e lutarem com outros homens, podem morrer, seja às mãos de qualquer outro homem, seja executado pelo Estado. Se eles não competirem, no entanto, eles decerto morrerão reprodutivamente, por não deixarem cópias dos seus genes. Então, a competição, mesmo com o risco de morte, é melhor do que a alternativa.

No meu próximo artigo, vou explicar como podemos estender esta lógica, para explicar por que os homens cometem crimes contra o património.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).