Por Gustavo Martins-Coelho

Não vejo habitualmente a TVI [1]: considero que é um canal de televisão cujo sensacionalismo noticioso ultrapassa os limites do razoável e cuja programação generalista é — para usar a terminologia do pai dum grande amigo [2] — alienante. Mas, na semana passada, abri uma excepção. Na Segunda-feira, dia 13, foi emitida uma reportagem, intitulada «1 hora e 35 minutos» [3], sobre a realidade do dia-a-dia dos serviços de urgência, que decidi ver. Então, beneficiando daquela função dos modernos pacotes de televisão, que nos permite voltar a ver o que já passou em dias anteriores e não tivemos oportunidade de ver em directo, no dia seguinte à transmissão original encontrei, finalmente, o tempo, à noite, para me dedicar ao visionamento da dita reportagem!

Antes de mais, deixem-me lavar a alma da indignação que me inunda, de cada vez que oiço um jornalista (ou o cidadão comum) dizer «as urgências do hospital». Os hospitais estão organizados em serviços, um dos quais é o serviço de urgência, não de urgências! Quando se diz «a urgência», está-se a reduzir o nome do serviço — serviço de urgência —, da mesma forma que, quando se diz «a cirurgia», se está a reduzir o nome do serviço de cirurgia — que é serviço de cirurgia e não «de cirurgias», independentemente do número de cirurgias que lá se fazem. O serviço de urgência também atende várias situações de urgência, apocopadas em urgências, sem por isso passar a chamar-se «serviço de urgências».

Quanto à reportagem propriamente dita, não me surpreendeu o sensacionalismo que a perpassou. Mas, para além desse verniz, a situação relatada, as imagens captadas e os depoimentos recolhidos são, gostemos ou não, a realidade que temos de enfrentar, uma realidade desumanizante, escondida por uma leitura oficial menos atenta dos números, que dizem que estamos «no pelotão da frente».

Em primeiro lugar, é preciso dizer-se que os serviços de urgência são a parte mais difícil de planear e de gerir, num hospital. Isto significa que, por muito bem que um serviço de urgência funcione, o seu desempenho sempre tenderá a ficar aquém do dos restantes serviços do hospital. Como são os restantes serviços que estabelecem o padrão de qualidade dos cuidados de saúde, sempre os serviços de urgência serão alvo de crítica, por não conseguirem igualar esse padrão de qualidade.

Feita que está esta nota inicial, passemos então às causas. Em primeiro lugar, é importante notar que o número de admissões nos serviços de urgência do Serviço Nacional de Saúde não se alterou de forma considerável na última década (ou, pelo menos, até quando o Instituto Nacional de Estatística dispõe de dados): em 2002, houve 6.662.560 admissões e, em 2012, menos 211.048 (uma redução de 3 %). No entanto, no mesmo período, foram encerrados trinta serviços de urgência, por todo o País. Note-se que não estou a criticar essa opção (até porque é uma opção bem fundamentada tecnicamente e que ainda não foi questionada, desde 2008, mesmo com a mudança da cor ideológica de quem nos governa); estou somente a relatar os factos, no sentido de chamar a atenção para uma outra questão de matemática simples [4]: se passamos duma situação em que seis milhões e meio, mais coisa, menos coisa, de situações de urgência são atendidas por 73 serviços para outra em que os mesmos seis milhões e meio são atendidos por 43 serviços de urgência, o número de doentes atendidos em cada serviço de urgência vai inexoravelmente aumentar. Se o número de doentes atendidos em cada serviço de urgência vai aumentar, então, os recursos desse serviço têm de aumentar.

Foi isso que aconteceu? Para a semana, veremos…