Por Gustavo Martins-Coelho

Gustavo: Dou hoje início a uma série de crónicas dedicadas aos programas prioritários referidos na última semana [1], contando, para esta semana, com a colaboração do meu colega Diogo Medina, que é médico interno de Saúde Pública do Agrupamento de Centros de Saúde de Almada/Seixal e consultor do Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evidência, da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. O Diogo vai falar-nos um pouco sobre o programa nacional para a diabetes. Diogo, obrigado por estares comigo.

Diogo: Ora essa, obrigado pelo convite.

Gustavo: Na semana passada, limitei-me a passar muito ao de leve os objectivos gerais do programa: prevenir novos casos de diabetes e diminuir a mortalidade específica por diabetes. A minha primeira pergunta para ti é: por que se justifica um programa com estes objectivos?

Diogo: A diabetes é uma doença que as pessoas conhecem de nome, e talvez até saibam quais as dificuldades que a rotina diária dum doente enfrenta; mas, na realidade, os seus efeitos são desconhecidos da maioria das pessoas. É uma doença endócrina, sim — ou seja, relacionada com uma hormona, que é a insulina —, mas tem efeitos sistémicos, ou seja, em vários órgãos do nosso corpo. Por isso, pode ser causa ou factor de risco de várias outras doenças que as pessoas conhecem.

Gustavo: Como por exemplo?

Diogo: A diabetes relaciona-se intimamente com doenças oculares, dos rins e até mesmo com alguns sintomas que as pessoas tendem a desvalorizar, como a perda de sensibilidade.

Gustavo: Pelo que disseste, já percebemos a importância de controlar e prevenir a diabetes. O programa assenta em que estratégias, para atingir esses objectivos?

Diogo: O programa tem como objectivos a redução do número de novos casos (isto é, a incidência), de novos casos das doenças que podem surgir como complicações e, em última análise, a redução do número de mortes. Para o conseguir, depende de estratégias sobretudo preventivas — seja no combate aos factores de risco, seja no diagnóstico precoce, e até mesmo na garantia da prestação dos cuidados mais adequados.

Gustavo: Relativamente aos factores de risco, o que podemos fazer para controlá-los?

Diogo: Essa é, curiosamente, a coisa mais fácil e barata que podemos fazer e também aquela que a ciência indica ser mais eficaz, mas que sabemos que mais custa às pessoas. E aqui as dicas são simples: para prevenir a diabetes, basta garantir que praticamos cerca de 150 minutos por semana de actividade física aeróbica de intensidade moderada, como, por exemplo, corrida, natação ou andar de bicicleta — sempre de acordo com a nossa condição física, claro — e também controlar o nosso peso, garantindo que não cometemos excessos.

Gustavo: Quando falaste em 150 minutos por semana, pus-me aqui a fazer contas e vi que isso dá, por exemplo, vinte minutos por dia, todos os dias, ou uma hora, duas a três vezes por semana. Existe uma opção preferível, em termos de distribuição da actividade física por períodos, ou qualquer actividade é boa? E por que dizes que é o que custa mais às pessoas?

Diogo: Aquilo que a maioria dos estudos analisa diz respeito à prática regular, o que implica a divisão pelos dias da semana. Em termos práticos, o conselho é para que as pessoas tentem dividir em cinco momentos semanais, de meia hora cada. Outra forma fácil de medir a actividade, para quem tenha smartphones ou podómetros, é tentar fazer dez mil passos diários, o que se equipara aos tais trinta minutos de actividade.

Gustavo: Última pergunta, porque o tempo está a acabar: falaste várias vezes nos estudos por trás das recomendações que nos trouxeste; por que é tão importante seguir o que diz a ciência sobre quais as intervenções e opções que podemos tomar, relativamente ao controlo da diabetes — e doutras doenças?

Diogo: Qualquer medida em saúde, seja preventiva ou curativa, implica ou pode implicar o gasto de quantias consideráveis de dinheiro e, mais do que isso, tem o potencial de melhorar a vida de milhares e milhões de pessoas! Daí que, no momento de escolha entre uma e outra opção, a experiência pessoal do médico, do próprio ou dum amigo não baste e seja aconselhável estudar o que acontece no maior número de pessoas possível e optar pelas medidas que demonstrem melhores resultados.

Gustavo: Obrigado, Diogo, pelo teu contributo para esclarecer um pouco do que é a diabetes, do que podemos fazer para a prevenir, e da importância de fazermos escolhas baseadas no conhecimento científico.