Por Gustavo Martins-Coelho [a]

O Pedro Passos Coelho não é social-democrata, nem se identifica com o programa fundador do Sá Carneiro. É um político profissional que ascendeu dentro do partido, através da «jota», e que hoje se agarra ao neoliberalismo de pacotilha com a mesma convicção com que já foi defensor das grandes obras públicas. Mas, quando falou na «apropriação excessiva dos direitos das gerações futuras por parte das actuais gerações», na moção que levou ao congresso do PSD em 2014, preconizava o ataque a reformas e pensões, aos direitos adquiridos e a outros aspectos daquilo que consideram o statu quo, não como consequência conjuntural das imposições da troika, mas como revolução estrutural, destinada a impor uma justiça «geracional» entre «gerações actuais» e «futuras».

Este discurso começou nas «jotas» dos anos oitenta e noventa do século passado e chamava-se «discurso geracional»: reivindicava mais lugares, mais funções, mais poderes e funcionava como legitimação política da autonomia das juventudes partidárias. Era um discurso sindical, que procurava aproveitar a «juventude» enquanto «marca» com boa imprensa e a que muita gente acriticamente faz vénias. Com a passagem dos anos, estes «jotas» ascenderam nos partidos, ocupando as direcções partidárias, os cargos a que os partidos políticos tinham acesso por via eleitoral e as estruturas do Estado. Não é por acaso que o António Guterres escolheu a palavra «boys» — «rapazes» — para se referir aos «jotas» que ocupavam lugares nas autarquias; nas empresas municipais; nas assessorias; nos sectores regionalizados da saúde e da educação; em certas áreas governamentais, como o Instituto da Juventude, o desporto; nas quotas de juventude dos grupos parlamentares, do Parlamento Europeu, nos gabinetes ministeriais. Estas carreiras eram acompanhadas da ausência de estudos (ou cursos desqualificados ou «frequência» de cursos), da falta de experiência verdadeira no mundo do trabalho, sem qualquer carreira profissional fora da política ou com profissões ambíguas, como «consultor».

Foi esta a escola do Passos Coelho e do Miguel Relvas, que lançaram o discurso «geracional» como instrumento de reivindicação política e de ascensão pessoal e de grupo. Para além da idade, não havia qualquer substância própria nesse discurso. Havia modas, muitas vezes reportadas por jornalistas «jovens», mas pouca política. A JSD e a JS uniam-se numa afirmação de comunidade geracional, alheia a qualquer consideração política e ideológica. Faziam a rábula dos «jovens irreverentes», mas isso, com o tempo, tornou-os apenas os executores do «trabalho sujo» dos partidos.

Na verdade, a única identidade política que unia os autores do «discurso geracional» era a defesa das suas carreiras dentro dos partidos e através dos partidos o acesso ao poder económico, social e político. Hoje, embora sejam hoje homens de meia-idade, já velhos para o mercado de trabalho, se quisessem entrar nele, estes antigos «jotas» do «discurso geracional» moldaram a política partidária nos últimos anos e são a encarnação viva dum dos grandes problemas da democracia portuguesa: a partidocracia. Não é por isso de estranhar que o Pedro Passos Coelho não tenha problema algum em usar os discursos de divisão social, em que se especializou quando do «discurso geracional».

A frase sobre a «apropriação excessiva dos direitos das gerações futuras por parte das actuais gerações» é prenhe de significado político e ideológico, mas é má no plano político e falsa no seu conteúdo. Quem define o que é «excessivo»? Como se pode arrogar de «defender» os «jovens» quem degradou as suas condições de vida actuais, inclusive ao atirar os seus pais e avós para a pobreza, e quem, empurrando-os para o desemprego, a emigração ou a precariedade, lhes estraga o presente e o futuro? E que «futuro» terão, sendo menos qualificados e com salários mais baixos, «ajustados»? É retórica que usa a juventude para garantir uma nova hierarquia social de poder. É também má no plano da moralidade social, gera gente indiferente aos estragos que faz na vida alheia, gente que, perante qualquer problema, culpabiliza os mais fracos. Assenta no poder do Estado para atacar quem tem pouca defesa, no meio ou no fim da vida. É o produto de gente mal formada.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original do José Pacheco Pereira, publicado no jornal «Público» [1].