Por Satoshi Kanazawa [a]

As meninas que crescem sem os pais em casa tendem a atingir a puberdade mais cedo do que as meninas que crescem com os pais [2], possivelmente porque a ausência do pai é um indicador do grau de poligamia na sociedade [3]. Como as meninas que atravessam a puberdade mais precocemente têm maior probabilidade de iniciar a actividade sexual e de engravidar mais cedo na vida e vir a ser sexualmente mais promíscuas ao longo da vida, a idade da menarca é um determinante importante do resto da vida. Que outros factores podem influenciar a idade da menarca?

Além da ausência do pai, o risco e a incerteza no ambiente familiar duma menina estão geralmente associados a uma puberdade mais precoce. Foi demonstrado que qualquer coisa capaz de potencialmente levar à morte prematura duma rapariga, em idade jovem, é capaz de acelerar sua maturação. Isto faz perfeito sentido em termos evolutivos: se um indivíduo pode morrer a qualquer momento, então deve começar a reproduzir-se o mais cedo possível, a fim de ter alguma chance de deixar descendência e alcançar o sucesso reprodutivo. Aqueles que vivem em ambientes de risco e de incerteza não podem dar-se ao luxo de demorar muito tempo até atingirem a maturidade e adiarem a reprodução. Esta é, pelo menos, parte da razão pela qual as meninas de famílias pobres amadurecem mais cedo e têm filhos mais jovens.

Nas famílias ocidentais contemporâneas, o nível de conflito e de tensão entre a filha e a mãe ou o pai é, muitas vezes, usado como indicador de risco e de incerteza na família. As meninas que têm pais calorosos e que as apoiam atingem a puberdade e têm filhos mais tarde do que as meninas cujas relações com os pais estão repletas de conflitos e de tensão. No entanto, acredito que o risco ambiental e a incerteza como pistas para uma estratégia reprodutiva particular (neste caso, de maturação precoce, com uma grande quantidade de descendentes, e pouco investimento em cada um), são uma causa totalmente diferente de menarca precoce, relativamente à ausência do pai como indicador de poligamia; caso contrário, esse mecanismo não poderia explicar por que todas as meninas nas sociedades poligâmicas, em média, atravessam a puberdade mais cedo do que as meninas em sociedades monogâmicas (obrigado ao Jay Belsky, como de costume, por me indicar a mais recente literatura científica sobre este tema).

Finalmente, antes de concluir esta colecção [4], gostaria de responder a um comentário feito num dos anteriores artigos. Os leitores regulares desta coluna sabem que eu sigo a política de nunca responder a comentários dos leitores, porque, francamente, como os leitores regulares também saberão, a maioria dos comentários não merece uma resposta. No entanto, há um comentário particularmente perspicaz sobre o primeiro artigo desta colecção, que eu não resisto a comentar.

O Michael Perreault pergunta se as meninas que vêem muitos casais divorciados na televisão podem antecipar a puberdade. Dado que não havia imagens realistas de outros seres humanos (como acontece na televisão e nos filmes) no ambiente evolutivo, o cérebro humano tem dificuldade em distinguir as personagens televisivas que encontram repetidamente na televisão (os «amigos televisivos») dos amigos reais, embora os trabalhos mais recentes sugiram que esta tendência possa estar em grande parte limitada às pessoas com menor inteligência em geral. Se as pessoas tiverem uma dificuldade implícita em separar a televisão da realidade, então poderão as meninas atravessar a puberdade precocemente (tal como geralmente acontece como resultado do divórcio dos pais), por observarem casais divorciados na televisão?

Eu adoro perguntas deste género, porque elas poderiam provir de alguém que entende real e profundamente a psicologia evolutiva em geral e o princípio da savana em particular. Alguém que não entenda completamente a psicologia evolutiva nunca irá colocar perguntas como esta. Por muito perspicaz e engenhosa que seja a pergunta do Michael Perreault, no entanto, eu não acho que o princípio da savana funcione, neste caso particular, por uma série de razões.

Em primeiro lugar, eu creio que a frequência de divórcios e de tensão e conflitos nas famílias retratadas nos programas televisivos é menor do que as famílias americanas reais. É verdade que, em comparação com os dias das aventuras de Ozzie e Harriet e do Beaver, mais e mais telenovelas apresentam hoje famílias destruídas e reconstituídas. Mas, ainda assim, julgo que a proporção de casais divorciados é menor na televisão do que na vida real e que a televisão definitivamente sub-representa as famílias com grave tensão e conflitos. Tais famílias simplesmente não produzem telenovelas interessantes.

Em segundo lugar e mais importante, como eu mencionei no meu artigo anterior  [3], o mecanismo bioquímico mais provável, através do qual a ausência do pai provoca a menarca precoce são as feromonas transmitidas à filha dos homens não consanguíneos na família (o padrasto, o novo namorado da mãe, etc). Se for este o caso, então o simples acto de ver famílias com um padrasto na televisão não será suficiente para desencadear a menarca precoce numa menina, mesmo que o seu cérebro implicitamente pense que ela vive agora com um padrasto, porque os sinais de televisão não transportam feromonas.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).