Por Gustavo Martins-Coelho

Quando andei na escola, aprendi o método científico. Aprendi o que é, para que serve e como funciona. Hoje, a propósito do tema que pretendia tratar, voltei à página na Internet [1] da Direcção-Geral da Educação, onde vasculhei os programas e as metas curriculares, tanto do ensino básico [2] como do secundário [3], das disciplinas científicas — que são a Biologia, a Física e a Química — sem conseguir encontrar qualquer referência ao ensino do método científico. Tirando a possibilidade de eu ser muito distraído, ou doutra forma incapaz de encontrar a informação que procuro, mesmo quando ela se me planta em frente aos olhos (e que — atenção! — é uma possibilidade bem real), tirando essa possibilidade, sou levado a concluir que o método científico deixou de fazer parte do programa. Assim sendo, a consequência é ser o conhecimento científico transmitido aos nossos alunos sem que lhes seja explicado como o mesmo foi obtido, o que em nada o diferencia de qualquer outro dogma — algo em que eles devem acreditar, sem questionar. Transmitir dogmas: não pode ser essa a função da escola!

Ora então, por que falo eu do ensino e do método científico num espaço sobre saúde? Porque a medicina e as ciências da saúde são baseadas no conhecimento científico, obtido através do método científico; e porque eu acredito que os doentes e os cidadãos têm o direito — e o dever — de conhecer o fundamento daquilo que lhes é transmitido e a forma como esse conhecimento foi obtido, de forma a poderem avaliar se o mesmo faz sentido, ou se não passa duma crença sem sentido. Trata-se de ser crítico, de questionar e de aceitar apenas o conhecimento que assenta em bases sólidas; porque há muitos vendedores da banha da cobra, por aí.

Então, hoje eu vinha falar de quedas em casa e do que podemos fazer para as prevenir. Mas, em vez de apresentar meia dúzia de lições sobre pequenas obras que podem ser feitas em casa, lições essas que correm o risco de entrar por um ouvido e sair pelo outro, queria explicar donde provêm essas ideias; explicar por que razão é melhor seguir essas recomendações, do que ignorá-las. Mas, para isso, preciso de que a audiência esteja familiarizada com o método científico. Ora, como a escola, aparentemente, não cumpre o seu papel nessa matéria, lá terei de ser eu a explicar abreviadamente o método científico, pelo que as quedas ficam para a semana.

O método científico nasceu da necessidade de explicar o meio em que vivemos — os astros, a natureza, o Homem —, mas, acima de tudo, nasceu da necessidade de decidir quais são as boas explicações e quais as explicações que não fazem sentido. A sua descrição formal, de quais os passos que devem ser seguidos na busca do conhecimento, deve-se ao filósofo inglês Francis Bacon [4], no século XV.

Então, o método científico desenrola-se ao longo de seis fases. Tudo começa com uma observação, a qual suscita uma interrogação. Vemos que «isto é assim» — primeira fase — e perguntamo-nos «por que é assim» — segunda fase. A terceira fase é a formulação duma hipótese, com a qual procuramos responder à pergunta que formulámos, explicar «por que é assim». Essa hipótese traz consequências: se isto é assim por causa daquilo, então, se eu modificar aquilo, isto, a sua consequência, também deve mudar em conformidade. Esta é a quarta fase. Então, a quinta fase consiste na realização duma experiência, que permita confirmar essa hipótese, modificando a causa hipotética do facto observado e verificando como reage o que julgamos ser a consequência. Se tudo correr bem, chegamos à conclusão de que a nossa hipótese estava correcta, daí derivamos uma lei geral e estão concluídas as seis fases do método científico. Se o resultado da experiência não for aquele que esperávamos, reformulamos a hipótese, incorporando os novos dados, e desenhamos uma nova experiência. Mas essa é também a beleza da ciência: mesmo quando a experiência não corre como queríamos, sempre aprendemos algo. Aliás, há muitas descobertas científicas de relevo que acontecem por puro acaso, ou quando tudo corre mal!

Mas isso são contas doutro rosário. Para a semana, veremos como as seis fases do método científico foram aplicadas à prevenção das quedas em casa.​