Por Satoshi Kanazawa
Traduzido do original [1] por Gustavo Martins-Coelho


É comummente aceite que a determinação do sexo do bebé é inteiramente devida ao acaso. Quase, mas não exactamente. É em grande parte ao acaso, mas existem factores que influenciam muito subtilmente o sexo dum bebé. É também comum acreditar que exactamente metade dos bebés nascidos são meninos e a outra metade são meninas. Quase, mas não exactamente. A razão de masculinidade normal ao nascimento é de 105 meninos por cada 100 meninas. Mas esta razão varia ligeiramente em diferentes circunstâncias e entre diferentes casais. Então, que factores afectam o sexo da criança?

Qualquer discussão sobre a razão de masculinidade ao nascer deve começar pelo trabalho do Robert L. Trivers, que é um dos maiores biólogos evolutivos da sua geração. Em 1973, a ele juntou-se um matemático, Dan E. Willard, para formular um dos princípios mais célebres da biologia evolutiva, chamada Hipótese de Trivers-Willard. A hipótese afirma que os pais ricos de alto estatuto têm mais filhos, enquanto pais pobres de estatuto baixo têm mais filhas. Isso acontece, porque as crianças geralmente herdam a riqueza e o estatuto social dos pais. Os filhos de famílias ricas, que se tornam ricos, têm, durante a maior parte da história evolutiva, tido a possibilidade de ter uma grande quantidade de esposas, amantes e concubinas e produzir dezenas ou centenas de crianças, enquanto as suas irmãs igualmente ricas podem ter apenas um número limitado de filhos. Então, os pais ricos devem «apostar» em filhos, em vez de filhas.

Por outro lado, os filhos pobres podem esperar ser completamente excluídos do jogo reprodutivo, porque nenhuma mulher os escolheria como seus companheiros. Mas as suas irmãs igualmente pobres ainda podem esperar ter algumas crianças, se forem jovens e bonitas. O «limiar superior da adaptação» — o maior sucesso reprodutivo que pode ser esperado por cada indivíduo — é muito maior para os homens do que para as mulheres, «limiar inferior da adaptação» — o menor sucesso reprodutivo que pode ser esperado por cada indivíduo — é muito mais baixo para os homens. Assim, os pais pobres devem «apostar» nas filhas em vez dos filhos. A selecção natural faz os pais terem uma razão de masculinidade tendenciosa na sua descendência, dependendo das suas circunstâncias económicas — mais meninos se eles são ricos, mais meninas se forem pobres.

Há provas que sustentam esta hipótese em todas as sociedades humanas. Os presidentes, vice-presidentes e secretários de Estado norte-americanos têm mais filhos do que filhas (embora apenas durante a primeira metade da sua História). Os pastores pobres Mukogodo, na África Oriental, têm mais filhas do que filhos, tanto ao nascimento como na faixa etária de 0–4 anos. Os registros paroquiais da igreja dos séculos XVII e XVIII na Alemanha mostram que os proprietários ricos de Leezen, Schleswig-Holstein, tinham mais filhos do que filhas, enquanto os trabalhadores agrícolas e comerciantes sem propriedade tinham mais filhas do que filhos. Entre os índios cheienes, nas planícies americanas, os «chefes de paz» de alto estatuto têm mais filhos que filhas, enquanto os «chefes de guerra», pobres e marginais, têm mais filhas do que filhos na faixa etária de 0–4 anos. Nos Estados Unidos e na Alemanha contemporâneos, a elite — julgada pela listagem na publicação Who’s Who de cada país — tem uma maior proporção de filhos do que a população geral. Numa investigação internacional com um grande número de sujeitos de 46 países diferentes, os indivíduos mais ricos tinham maior probabilidade de indicar uma preferência por rapazes, se só pudessem ter um filho, enquanto indivíduos menos ricos tinham maior probabilidade de indicar preferência por filhas. Embora existam alguns dados de sentido oposto, a maioria dos dados suporta a hipótese de Trivers-Willard.

No meu próximo artigo, vou discutir como o génio do Robert L. Trivers na hipótese de Trivers-Willard foi estendido em novas direções.