Por Satoshi Kanazawa
Traduzido do original [1] por Gustavo Martins-Coelho


A hipótese generalizada de Trivers-Willard sugere que qualquer característica hereditária dum progenitor que seja benéfica de forma desproporcional para os descendentes do sexo masculino e feminino pode modificar a razão de masculinidade da descendência no sentido que beneficia o sucesso reprodutivo dos pais. Até agora, foi demonstrado que os engenheiros e os cientistas são mais propensos a ter filhos, enquanto os enfermeiros e os assistentes sociais têm maior probabilidade de ter filhas; pais grandes e altos são mais propensos a ter rapazes; pais violentos são mais propensos a ter rapazes; e pais bonitos são mais propensos a ter raparigas. Outro factor que pode influenciar subtilmente o sexo das crianças é a orientação sociossexual dos pais, ou seja, o grau de promiscuidade do pai ou da mãe.

No nosso artigo, publicado nos «Annals of Human Biology», Péter Apari, da Universidade Eötvös, e eu, alargamos a hipótese generalizada de Trivers-Willard à orientação sociossexual. Comparados com aqueles com orientação sociossexual limitada, os indivíduos com orientação sociocultural ilimitada são mais propensos a: terem relações sexuais mais cedo nos seus relacionamentos; terem relações sexuais com mais do que um parceiro ao mesmo tempo; e estarem envolvidos em relações sexuais caracterizadas por menos investimento, compromisso, amor e dependência. Ainda que os homens, em geral, sejam sociossexualmente mais irrestritos do que as mulheres, a variação intra-sexual na orientação sociossexual é muito maior do que a variância entre sexos.

Devido à assimetria sexual na biologia reprodutiva, a orientação sociossexual ilimitada tem o potencial de aumentar imensamente o sucesso reprodutivo dos homens, mas é provável que diminua o das mulheres. Os homens com orientação sociossexual ilimitada podem fecundar um grande número de mulheres simultaneamente e, mesmo sem investimento paterno, algumas das crianças daí resultantes provavelmente sobreviveriam até à maturidade sexual. Por seu lado, as mulheres com orientações sociossexuais ilimitadas não podem ter mais filhos do que as limitadas que têm um parceiro sexual regular e é pouco provável que consigam garantir o investimento paterno nos seus filhos, porque nenhum dos homens pode estar razoavelmente seguro da sua paternidade . Além disso, as mulheres em relações que são sociossexualmente ilimitadas podem incorrer em custos somáticos significativos de violência conjugal, porque o ciúme masculino é frequentemente desencadeado por infidelidade sexual real ou imaginada; e muitos homens casados usam a violência como táctica para a retenção das companheiras.

Há dados que sugerem que a orientação sociossexual e o risco de divórcio, que muitas vezes resulta da orientação sociossexual ilimitada, são altamente hereditários. Um estudo duma grande amostra de gémeos australianos, levado a cabo pelo geneticista do comportamento J. Michael Bailey, que já encontramos antes [2], e seus colegas, mostra que quase metade da variância na sociossexualidade é atribuível aos genes. Por outras palavras, pessoas pudicas geram filhos pudicos, e galdérios geram galdérios. Como expliquei num artigo passado [2], o risco de divórcio é outro traço hereditário que segue a regra 50-0-50: cerca de 50% da variância é hereditária, cerca de 0% é devido ao ambiente familiar partilhado e cerca de 50% é devido ao ambiente não partilhado. Então, aproximadamente metade da variância no risco de divórcio, bem como da orientação sociossexual, é hereditária.

A lógica da hipótese generalizada de Trivers-Willard sugere, portanto, que os indivíduos com orientação sociossexual ilimitada («galdérios») são mais propensos a ter rapazes do que aqueles com orientação sociossexual limitada («pudicos»). A nossa análise de duas grandes amostras nacionais representativas, da General Social Survey [Inquérito Social Geral] de 1994 e do National Longitudinal Study of Adolescent Health [Estudo Longitudinal Nacional da Saúde do Adolescente], confirmam esta previsão. Ajustando para um grande número de factores sociodemográficos que acreditamos poderem, de forma independente, influenciar a razão de masculinidade dos descendentes, a orientação sociossexual ilimitada aumenta significativamente a probabilidade do primeiro filho ser um menino. Um aumento de um desvio padrão na ilimitação da orientação sociossexual aumenta a probabilidade de ter um filho em 12–19%.

Parece, portanto, que a orientação sociossexual, seja uma pessoa relativamente limitada ou ilimitada no comportamento sexual, é mais um factor que pode influenciar subtil e ligeiramente o sexo da descendência, juntamente com os tipos de cérebro [3], o tamanho do corpo [3], a tendência para a violência [3] e a beleza física [4].